I – NA ROTA DE CABO VERDE

Na década de oitenta do século passado, enquanto para Cabo Verde os barcos iam carregados com todo o tipo de carga, no regresso a Lisboa os porões vinham praticamente vazios, apenas com alguns contentores de banana da Ilha de Santiago. Para sul navega-se com a ondulação a empurrar-nos pela ré. Como se fosse possível surfar num colosso de centenas de toneladas de metal, sem prancha e sem que as ondas se desfaçam totalmente na rebentação.

Proa do Elsie. Atlântico Norte, a caminho de Cabo Verde. Julho 1987© Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

O tom azul petróleo do oceano que a proa rompe num sobe e desce contínuo, espelha a profundidade do mar sobre o qual navegamos durante dias a fio. A costa de África não se enxerga neste rumo. Para além do navio, o horizonte circular de mar à nossa volta faz-me acreditar que o planeta é afinal mesmo redondo.

NAVEGAR COM OS PEIXES VOADORES

Atravessei diversas vezes o Atlântico em direcção a Cabo Verde em navios cargueiros. Lentamente. Assim foi, pela primeira vez, em 1987, no navio motor Elsie. Mais tarde, também no mesmo navio, em 1994 e, finalmente, em 1998, no Morabeza.

É grande a vontade de chegar a terra e às ilhas. Mas não é menor a vontade de saborear o presente. Esticá-lo e prolongá-lo o mais possível. Como a rota traçada na ponte após a largada do Tejo, desenhada no mapa de bordo a régua e esquadro. Vincada no papel pelo lápis que desliza pela mesma latitude e longitude, semana após semana, meses e anos a fio.

Feita a curva à esquerda, diante do farol do Bugio, lá vou eu de regresso ao sul, até Cabo Verde. Sempre a direito, sem hesitações, até à primeira escala. Quando chegar, cheguei.

A bordo do Elsie. Julho 1987 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

A bordo do Elsie. Julho 1987 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

No sentido inverso, o pouco lastro do navio não facilitava a progressão para norte dificultada pelos ventos alíseos, pela corrente e ondulação. A travessia era ainda mais lenta. Parecia feita ao retardador. Para além dos safanões que se sucediam, com os quais me habituara, sem enjôos, apetecia! Mesmo! Como se adiasse, o mais possível, o regresso a casa.

Eram dias serenos e plenos na companhia da tripulação, nas conversas mais ou menos prolongadas em que o mar, o céu, as estrelas, golfinhos, numa das vezes, uma baleia, noutra uma tartaruga, foram também companhia. Mas ainda haviam outros regressos e outras viagens por fazer.

Um dos protagonistas principais destas viagens foram os peixes voadores. No dia 1 de Agosto de 1987, anotava no diário da primeira viagem no Elsie de Lisboa rumo à Cidade da Praia:

Chegou Agosto; de noite passaremos o trópico. O sol está no zénite em Cabo Verde… à nossa espera.

O dia de hoje está mais quente, o mar um pouco mais manso. Se ontem foram os golfinhos a saltar perto do barco, hoje os peixes voadores traçaram perpendiculares à proa do Elsie. (…)

Estou sobre o trópico. Os peixes voadores saltam sobre a iluminação do navio. Ao longe, no horizonte, um outro barco faz a travessia em sentido contrário. Vê-se apenas uma luz perdida ao fundo do mar escuro.

Ré do Elsie. Julho 1987 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Dois dias depois, novas visitas a bordo:

Logo no primeiro olhar para o mar, vi um cardume de peixes voadores. Um saltou para bordo por entre mim e o filho do chefe de máquinas. Levei-o para a cozinha ainda a saltar. O Sr. João (cozinheiro) tinha ao pé do lava louça um montão deles caídos durante a noite … ficou mais um.

AS VIAGENS QUE SE SEGUEM

Na Rota de Cabo Verde continuará, mas agora por aqui, em mais três partes:

II – A bordo do Elsie

III – O navio vindo da América chega ao Fogo

IV – De regresso à Morabeza do Atlântico