III – O NAVIO VINDO DA AMÉRICA CHEGA AO FOGO

Chegada à Ilha do Fogo, Cabo Verde. 1994 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

NA ROTA DOS ANTIGOS BALEEIROS

É nos Estados Unidos que se encontra grande parte da diáspora da ilha do Fogo e da Brava, ao contrário do que acontece no restante arquipélago de Cabo Verde, cujo destino migratório predominante é a Europa. Tal deve-se à emigração baleeira que levou gerações destas duas ilhas em busca de uma vida melhor, para a costa leste americana, sobretudo na região de New Bedford, onde hoje existe uma comunidade importante de cabo verdianos e dos seus descendentes.

Era então o triângulo baleeiro que se desenhava entre a ilha da Brava, a poucas milhas da do Fogo, em Cabo Verde, a ilha do Pico, nos Açores e, do outro lado do Oceano, no Novo Continente, Boston.

Quer a ilha da Brava, como a do Fogo e do Pico, têm em comum a enorme profundidade do mar mesmo junto à costa. Tal permite uma maior proximidade de terra dos cetáceos nos seus longos mergulhos em busca de alimento durante as rotas de migração.

Ilha do Fogo. Cabo Verde. 1993 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Ilha do Fogo. Cabo Verde. 1993 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

No caso destas duas últimas ilhas, a presença visível e imponente dos vulcões que literalmente furaram o Oceano e, ainda não satisfeitos, parecem entrar pelo céu dentro, ajudam a melhor perceber o talude submarino por onde as baleias continuam a navegar.

Foi assim destas paragens onde se cruzavam e escalavam os navios baleeiros que permitiram aos ilhéus escapar às secas e fomes que dizimavam ciclicamente as populações de todo o arquipélago. Á boleia dos cachalotes vieram depois a encontrar um novo mundo de oportunidades. E por lá ficaram estes cabo verdianos até ao presente.

Na segunda metade do século XIX a aventura baleeira é retratada por Herman Melville. Moby Dick tem também um personagem originário da costa ocidental africana. Homem de poucas palavras que se destacava pela coragem e bravura com que enfrentava, olhos nos olhos, o Leviathan. Destemido e audaz na arte de lançar o arpão da proa para o trancar no dorso da baleia, nunca hesitava, desferindo o golpe fatal no momento certo, sem contemplação.

O navio que vem da América não vem mais para a baleação. Mas não deixa de ser um acontecimento importante a sua chegada à ilha do vulcão como se dará conta adiante.

CHEGAR E FUNDEAR ONDE NÃO HÁ CAIS

Na viagem de 1994, em que primeiro partimos de Lisboa rumo a Viana do Castelo e sobre a qual me referi no post II – A bordo do Elsie, chegados a Cabo Verde, depois de sairmos da ilha do Sal, seguimos para São Vicente.

A capital, o Mindelo, tem um enorme porto natural e uma vasta tradição marítima que remonta aos navios ingleses, a vapor, que ali faziam escala na rota entre a Europa e a América do Sul para se abastecerem de carvão

Toda a tripulação do Elsie era, sem excepção, natural de São Vicente. E assim acontecia na altura, como em todas as viagens que fiz. Talvez por isso, enquanto esperávamos a largada para a Praia, encontrei no cais o antigo Imediato com quem havia feito, em 1987, a primeira destas aventuras marítimas. O José Pedro Mariano era agora Comandante do navio Jenny que fazia as ligações entre Cabo Verde e os Estados Unidos. Sabendo que queria ir à ilha do Fogo, convidou-me para fazer consigo o que restava da viagem.

Navio Jenny fundeado no Porto de Vale de Cavaleiros. Ilha do Fogo. Cabo Verde. 1994 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Combinámos então que faria a viagem no Elsie até ao destino previsto, na Cidade da Praia, em Santiago; depois, a partir dali, iríamos juntos até São Filipe, a capital da Ilha do Fogo. E assim foi.

A partida aconteceu já ao final do dia e a viagem foi quase toda feita durante a noite. De manhã cedo, acordámos com terra a estibordo. E fomos rodeando em arco a pouca distância da costa a ilha do vulcão até chegarmos ao Porto de Vale de Cavaleiros, o nosso destino.

O Fogo é um vulcão activo que tem tido erupções recentes, sobretudo desde 1951, tendo a penúltima ocorrido um ano depois desta viagem.

Ilha do Fogo. Cabo Verde. 1993 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

As falésias descem desde a caldeira principal, ou do que dela resta, a pique para o mar ou para praias de areia preta as quais, em muitos casos, praticamente desaparecem com a maré cheia.

Ilha do Fogo. Cabo Verde. 1993 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

O cone do vulcão, tapado pelas nuvens que se acumulam nas vertentes a norte e a leste de onde sopram os ventos predominantes, está praticamente a 3 km de altura. Do topo, até ao mar, em linha recta, são cerca de 5 kms, o que diz bem do declive extremo do lado leste onde se abriu e desabou a cratera principal do vulcão há 73 mil anos, gerando um tsunami com ondas com mais de 200m de altura!

Vista a partir do cone do vulcão da Ilha do Fogo para Chã das Caldeiras e para o mar. Cabo Verde. 1993 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

É a força bruta da natureza! Dos imensos contrastes ao redor. Matizes de luz, sombra e cor em todo o seu esplendor, avistados cedo, pela manhã. Primeiro a partir da vigia, depois do convés e da ponte do Jenny até começarem as manobras para fundearmos.

Ao dobrar a costa para o canal situado a oeste que separa o Fogo da Brava, começa a soar uma forte e prolongada buzina que parte do navio e reverbera no mar. Inesperadamente ecoa nas encostas em terra, para voltar a escutar-se a bordo alguns segundos mais tarde.

Ilha do Fogo. Cabo Verde. 1993 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Ilha do Fogo. Cabo Verde. 1993 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Este vai e vem do apito, grave e rouco, que depois se arrasta até nós pelo ricochete nas falésias, mais parece a reacção dos ilhéus à boa nova anunciada, com aquele acento meio arrastado ali tão característico:

Nhôs tchiga! (- Sejam bem vindos!)

O som repetido do apito, é assim o aviso à população de São Filipe. Ficam todos a saber que o navio que vem da América chegou e que a carga e as encomendas que pediram aos seus amigos e familiares nos Estados Unidos está prestes a desembarcar.

Porto de Vale de Cavaleiros na Ilha do Fogo. Cabo Verde. 1998 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Se por algum problema de abastecimento escasseou, por exemplo, farinha para fazer pão, ela aí vem, acondicionada em caixas de madeira feitas contentores, onde se depositam as sacas, ou em enormes bidões que foram antes de combustível, mas que agora servem de resguardo à maresia e à água do mar durante o desembarque. Provavelmente o problema de abastecimento da farinha já foi resolvido há alguns meses. Mas se algo pudesse ter corrido de forma inesperada, ela aí está, disponível, demonstrando na prática a solidariedade entre os que partiram ou ficaram.

Porto de Vale de Cavaleiros na Ilha do Fogo. Cabo Verde. 1998 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Da estrada que desce de São Filipe para o porto de Vale de Cavaleiros começa, poucos minutos depois, um rodopio de carros a caminho do cais. A estrada habitualmente pouco movimentada, é então a via com mais trânsito em toda a ilha. Um frenesim de fretes, de sobe e desce que se prolonga para além de um novo forte e prolongado apito do Jenny que, poucas horas depois, levanta âncora e parte para oeste, em direcção ao porto da Furna, na vizinha ilha da Brava.

Ilha da Brava vista a partir da Ilha do Fogo. Cabo Verde. 1994 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

O Porto estava na altura destruído e não se pudia acostar junto ao cais. Por causa do molhe danificado, um outro navio viria ali a encalhar alguns anos depois. O Jenny fundeou assim ao largo e o transporte de pessoas e mercadorias foi feito em pequenas jangadas de madeira até à praia.

Desembarque do Jenny de mercadorias e de um carro para serem transportados para terra em jangadas de madeira. Ilha do Fogo, Cabo Verde. 1994 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Até uma carrinha de caixa aberta foi içada do convés para a pequena jangada. O pior estava para vir já perto do areal com o atravessar da rebentação. Guiada a pequenos remos ou pagaias que pouco mais pareciam servir do que para virar ou suster a custo o andamento com todo aquele peso, lá se conseguiu, com muita arte e engenho, evitar as ondas maiores e aguardar por um intervalo mais tranquilo e seguro para o desembarque.

São Filipe. Ilha do Fogo. Cabo Verde. 1998 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Foi já com saudades que deixei o porto de Vale de Cavaleiros em direcção a São Filipe e, depois, para o interior do vulcão, em Chã das Caldeiras onde acampámos em cima da pedra pomes durante alguns dias.

Assim terminou esta inesquecível viagem que havia começado há algumas semanas atrás em Lisboa.