
Sempre sonhei em fazer uma viagem num cargueiro. De vários dias. Cabo Verde também me ajudou a concretizar esse sonho. E mesmo assim, passados tantos anos, volto a sonhar em poder fazê-lo novamente. De preferência em breve.

Foi através de um contacto com o Comandante Alberto Lopes que estava atracado no Armazém 23 na Doca do Beato, em Lisboa, que fiz a primeira viagem de navio para Cabo Verde. Corria o ano de 1987. Mal sabia que, uns anos depois, haveria de ficar seu amigo e voltar a viajar por diversas vezes a bordo do navio motor Elsie.

Comandante Alberto Lopes, na ponte do Elsie. Julho de 1987 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Tripulação do Elsie. A caminho de Lisboa. Setembro de 1987 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Auto-retrato no camarote do Elsie, a caminho de Lisboa. Setembro 1987 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
Depois de concluído o documentário Cabo Verde em 1987, onde fui iluminador sub-aquático e assistente de realização, enviei ao Comandante Alberto uma cassete VHS com o filme. Queria assim agradecer-lhe a oportunidade que me havia concedido de fazer aquelas viagens inesquecíveis de que guardo tão boas memórias. Ficam para a vida. É mesmo assim.
Algumas semanas depois, recebi uma carta manuscrita do Mindelo, remetida pelo próprio, a agradecer. E a dada altura perguntava-me:
– Tu tens ideia do que me ofereceste?
E referia que o barco naufragado na Ilha do Sal que filmámos, foi onde ficou a sua aliança de casamento. Quando se deu o acidente era o Imediato em funções.

AS VIAGENS NO ELSIE
Durante cerca de 5 noites se navegava até chegar ao arquipélago. A velocidade “para baixo” era em média de 8, 10 e, com alguma sorte, 12 ou até mesmo 13 nós / hora. Lentamente, como convinha.
A segunda viagem que fiz no Elsie foi em Setembro de 1987. Regressei a Lisboa para continuar o curso de antropologia social um ano depois de ali ter vivido.
Tive um tratamento de excelência a bordo, tendo-me sido atribuído um camarote de oficial junto à tripulação.

Ao contrário dos camarotes dos passageiros, onde as vigias podiam ser abertas para o exterior, as janelas aqui não o permitiam. O Elsie era um navio que havia sido construído na Noruega para viajar nos fiordes. Mais tarde ‘emigrou’ para os trópicos sem que tivesse sido feita qualquer adaptação nesta parte do navio para enfrentar temperaturas bastante mais elevadas que as do norte da Europa.
Por causa do calor durante o dia, acabei por passar a maior parte do tempo no convés, ponte ou na sala de refeições do piso de baixo.

TENERIFE E AS CANÁRIAS A MEIO CAMINHO
A meio caminho atravessávamos as Canárias. A ilha é um colosso prostrado no meio do mar e o Monte Teide é o vulcão mais alto das ilhas do Atlântico. Com 3.718m, encontra-se a cerca de 7.500m de altura sobre o leito Oceânico.
Nos dias anteriores, mesmo antes de a vislumbrar no horizonte, há medida que nos aproximávamos ía antecipando o contacto visual pelas cartas que se encontravam na ponte.

São horas a fio a avistá-la antes de lá chegar, mais outras tantas horas a percorrê-la de uma ponta à outra e, finalmente, a contemplá-la a partir da ré até que desapareça no horizonte. É sem dúvida o grande acontecimento desta viagem. Por algum tempo deixava de me sentir só no meio do imenso oceano, ainda que isso não me preocupasse sequer. Antes pelo contrário.

No meu diário de bordo, assinalava na véspera que a proximidade com terra era pretexto para vermos a televisão espanhola. Motivos de interesse também não faltavam nesse dia. Passávamos a avistar muitos outros navios que cruzavam as ilhas ou faziam a rota da europa. Tínhamos muitas vezes a visita de aves que aproveitavam a boleia para fazer escala antes de retomar a rota para um destino misterioso.

Era Domingo, dia 27 de Setembro de 1987, três dias depois de ter partido da Cidade da Praia, a 26º 30´Norte e 17º W – ver mais abaixo no mapa que desenhei na Rota do Regresso:
Estamos à porta das Canárias. O céu já despejou uns aguaceiros e a configuração das nuvens é agora outra, com o ar mais leve. O mar não é o “azeite” de ontem, mas mantêm-se calmo. Logo pela manhã avistaram-se pequenas embarcações de pesca (traineiras), um navio fábrica que passou muito perto e um cargueiro. À noite, com a ilha do lado esquerdo do navio, a animação promete.

Mais tarde, pelas 22 horas, acrescentava:
28º 04 N e a 16 W
Estamos ao largo de Tenerife, do lado a estibordo, avistam-se as luzes de Las Palmas, na Gran Canária. Temos vindo a andar muito bem. Passei quase todo o dia na Ponte (…) olhei no radar, nas cartas, nos binóculos, almocei cachupa, jantei bacalhau à gomes de sá. (…). A noite está fresca e até já vesti uma camisola. O camarote é agora acolhedor.

Pelas 2 horas da matina promete-se o bisar da cachupada do almoço. Vou tentar não faltar. No canal o barco mal balouça, apenas estremece ecoando o persistente barulho da máquina.

A imponente Tenerife e o pico mais alto da ilha, o Monte Teide, acompanharam-nos ainda durante mais algumas horas. Nalguns momentos quase roçávamos a costa, ficando mesmo a menos de 5 milhas de terra.

Diário de Bordo. Setembro de 1987 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Na primeira viagem que fiz de Lisboa para Cabo Verde, no dia 31 de Julho de 1987, Tenerife foi o local escolhido para se proceder a uma reparação na casa das máquinas. Durante cerca de meia hora ficámos parados, enquanto o oficial das máquinas e os mecânicos de bordo procederam à intervenção. Numa deriva programada antecipadamente, se algo corresse menos bem, teríamos socorro por perto. Tudo foi feito em segurança e pudemos seguir viagem rumo sul sem mais incidentes.

Casa das máquinas do Elsie. 31 Julho de 1987 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Casa das máquinas do Elsie. 31 Julho de 1987 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
A caminho dos trópicos ou no regresso a Lisboa, depois de Tenerife sumir do horizonte, ficavam ainda mais alguns dias de deleite para aproveitar.
AS SELVAGENS AQUI TÃO PERTO
As ilhas selvagens ampliam consideravelmente as águas territoriais portuguesas, estando bastante mais perto das Canárias do que do arquipélago da Madeira.

2ª F. 28-9; 30ºN; 15º W
Clarões de trovoada e aguaceiros no horizonte. (…) As ilhas selvagens estão aqui ao lado, a cerca de 50 milhas, mas não se avistam embora a visibilidade seja boa quando não chove. A madrugada da Rádio Comercial teve uma boa selecção enquanto Tenerife ficava para trás. “Caminho longe (…) saudade ai saudade!” na voz do Bonga. Passava das 5 h da manhã em Portugal (4 h a bordo) quando me deitei. (…) O pequeno almoço, o tri da cachupa, foi de novo às 7h. 30.

Estes ingredientes, o tempo mais fresco e a chuva são uma feliz continuidade entre o arquipélago que ficou para trás e a Península que está para vir.

Contramestre do Elsie. Julho de 1987 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Corda de amarração. Julho de 1987 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
PASSAGEIROS IMPROVÁVEIS
Esta viagem ficou ainda marcada pelo transporte de 4 pequenos dragoeiros que apenas duas semanas antes trouxera da São Nicolau. Esta ilha era a última habitada do arquipélago que me faltava conhecer e tem justamente por símbolo o dragoeiro. Trouxe-os em pequenos saco pretos com terra, conforme me foram cedidos num viveiro que garantia a continuidade da espécie naquela ilha.

Natural das ilhas do Atlântico, o dragoeiro é um símbolo de resistência, podendo durar vários séculos. A sua seiva de cor vermelha, foi utilizada durante para tingir os “panos da terra”.
Passados que estão praticamente 40 anos, restam hoje dois, estando um deles aqui no quintal já com uns 7 metros de altura. Sempre me supreendo com a vitalidade deste dragoeiro que não pára de crescer e de alargar os seus troncos e as suas astes. Maresia por aqui não lhe falta. É bem o símbolo da vitalidade daquelas ilhas.
DE REGRESSO A BORDO

Como referi, viajei posteriormente mais algumas vezes no Elsie, mesmo quando o Comandante Alberto não estava a bordo. Numa dessas viagens, em 1994, saí de Lisboa rumo a Viana do Castelo. Dois dias depois partimos rumo à Ilha do Sal, depois seguimos para o Mindelo e, finalmente, para a Praia.

A viagem continuaria poucos dias depois noutro navio comandado por outro amigo rumo à ilha do vulcão. A III parte destas viagens fica para a crónica seguinte:
O navio vindo da América chega ao Fogo.