
O CHÃO QUE NOS FOGE DEBAIXO DOS PÉS
Depois de vários dias seguidos a bordo, ao desembarcar não se encontra o chão como antes de começar a navegar. De tal forma nos habituamos ao balanço que, ao chegar a terra, parece que nos foge debaixo dos pés.
Esta é uma metáfora da navegação em alto mar. Entranha-se. Primeiro no encanto do mar alto. De seguida, na adaptação à vida fora do navio e nos pés trôpegos à procura de apoio. Permanece sempre esta vontade de retomar novos rumos em novas viagens marítimas.
ENTRE O ÍNDICO E O ATLÂNTICO
Começava o ano de 1998. Partia novamente para Cabo Verde de navio com um grande amigo que tem ascendentes na ilha do Fogo. A ilha do vulcão voltava a ser o destino final da viagem. O Paulo Costa, antes embarcado em campanhas de pesca na Namíbia e, também, no bacalhau voltava, como eu, durante alguns dias, à condição de marítimo.

As férias antecediam em alguns meses o culminar da preparação das Culturas do Índico, um projecto promovido e produzido pela Comissão dos Descobrimentos que assinalava o V Centenário da Viagem de Vasco da Gama à Índia. Com um programa vasto, nomeadamente de várias exposições, edições de livros e CDs, concertos, colóquios, documentários e séries documentais, entre outros, culminaria com uma exposição com o mesmo nome que inaugurou no Museu Nacional de Arte Antiga em Junho desse ano.

Dois Oceanos se atravessavam no horizonte mais próximo. Em terra, mas também ao largo. O Atlântico será sempre familiar. Nasci e logo vim para a costa saloia; enquanto gaiato vivi em Cabo Verde e o mar sempre esteve presente enquanto lá estive. A partir de 1996, quando trabalhei na Comissão dos Descobrimentos, passei a conhecer o Índico e a costa oriental africana, nomeadamente Moçambique, Tanzânia, Zanzibar e Quénia. Pude então deparar-me com outros “mundos” igualmente fascinantes e completamente distintos dos que até ali conhecia neste continente.

Ao contrário do Índico, onde me confrontava e questionava permanentemente sobre o que encontrava, regressar a Cabo Verde de navio, naquela altura, à porta do calendário das comemorações que se anunciavam para daí a poucos meses, foi como que mais um regresso a casa. Tudo aquilo me era familiar. O poder falar crioulo ajuda nesta sensação de conforto, claro. Era como se tratasse de lançar ‘âncora’ à porta de casa. Umbilical.
A BORDO DO MORABEZA

Desta vez a viagem foi feita noutro navio que não o Elsie: o Morabeza. Em crioulo, Morabeza significa amável, gentil, afável. Neste barco de aspecto frágil e aparência antiquada, estes atributos não se ficavam pelo nome. Saídos de Lisboa rumo à ilha de Santo Antão, depois ao Mindelo, em São Vicente e finalmente à Cidade da Praia na ilha de Santiago, os dias e as noites viriam a comprovar que eram mesmo parte daquilo que iríamos encontrar e partilhar.

Esta era um navio ainda mais pequeno que o Elsie. Na última viagem que fiz neste último, ao entrarmos na barra do porto de Viana do Castelo, onde o Morabeza havia acabado de chegar, lembro-me bem da chacota e dos piropos lançados à outra tripulação. Vindos ambos de Cabo Verde, o Elsie tinha como destino Lisboa e o Morabeza Viana do Castelo. O primeiro “ultrapassou-o” nas Ilhas Canárias com destino ao Tejo, onde carregou. Seguiu depois viagem para Viana. Como o Morabeza havia ficado fundeado em Tenerife para se proteger do mau tempo a norte, acabaram por ali entrar praticamente ao mesmo tempo.
Mal sabia que, alguns anos mais tarde, também iria ter a oportunidade de poder cruzar os mares neste navio de “charme”.
Nunca tive pressa nestas viagens. Quanto mais devagar, melhor. Ainda que não houvesse naquele ano, pelos motivos que acima referi, possibilidade de regressarmos de barco para Lisboa, cada dia a bordo era vivido com gosto e com uma vontade de usufruír plenamente de mais uma oportunidade para cruzar o Atlântico em direcção aos trópicos. E a companhia do meu amigo Paulo, reforçavam esse enorme prazer de com ele poder viajar daquela forma e ainda por lhe poder dar a conhecer aquela que era, afinal, também a nossa terra: Cabo Verde.

A bordo do Morabeza. Janeiro de 1998 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Tripulação do Morabeza. Janeiro de 1998 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

A pescar sem isco na ré do navio. Janeiro de 1998 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Na cozinha do Morabeza. Janeiro de 1998 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Na cozinha do Morabeza. Janeiro de 1998 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Ginásio improvisado. Janeiro de 1998 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Sessão de filmes na messe dos oficiais do Morabeza. Janeiro de 1998 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
Uma das principais recompensas de viajar durante dias a fio pelo mar num cargueiro, é o contacto humano que estabelecemos com a tripulação. Da ponte, à casa das máquinas, passando pela cozinha ou até mesmo pelo convés onde por vezes há tarefas por cumprir.
O barco acaba por ser uma casa comum. Circula-se livremente entre os vários espaços para conhecer melhor alguém que partilha algo connosco e com quem podemos aprender. Nesta prisão a céu aberto, a criatividade não tem limites: as escadas para os camarotes pode bem ser adaptadas para um ginásio improvisado desde que se mantenha a forma. Um marinheiro lança uma corda com um trapo na ponta, atado a um anzol, para aproveitar a deslocação do navio, na expectativa que algum peixe de grande porte possa morder um isco … inexistente ! Na cozinha, conversamos horas a fio partilhando uma rotina que vai sendo cada vez mais familiar, enquanto se bebe uma mini, se prepara uma refeição ou apenas um petisco.

No convés do Morabeza, a caminho de Cabo Verde. Janeiro de 1998 © Paulo Costa. Todos os direitos reservados.

No convés do Morabeza. Janeiro de 1998 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

No convés do Morabeza. Janeiro de 1998 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
Durante a viagem, para além de ter filmado e tirado algumas fotografias, pude também recolher algumas paisagens sonoras a bordo. Neste registo feito com mini disk, captei o som do mar a partir da proa e, posteriormente, o som do convés onde se ouve o som da chaminé do navio. Se fechar os olhos, é um som que me embala. Parece que foi ontem.
O nosso primeiro destino em Cabo Verde foi Porto Novo, na ilha de Santo Antão. Por ali ficámos apenas algumas horas para desembarcar uma grua. Sem demora, partimos depois para atravessar o canal que nos levou até à ilha de São Vicente.

Chegada do Morabeza a Porto Novo, Santo Antão. Janeiro de 1998 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Morabeza atracado em Porto Novo, Santo Antão. Janeiro de 1998 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Descarga de uma grua do Morabeza em Porto Novo, Santo Antão. Janeiro de 1998 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
Uns anos mais tarde, voltei a encontrar o Morabeza ancorado em Lisboa e visitei a tripulação. Agora o barco era azul e mantinha todo o “charme” de um cargueiro com tanta experiência de vida que tão bem distingue os “lobos do mar” que nele navegam.



