
Em Setembro de 1991, viajei para o tecto do mundo. Percorri com um grupo de antropólogos parte de um percurso feito por dois missionários Jesuítas Portugueses que, na primeira metade do século XVII, partiram de Hoogly, no Golfo de Bengala e alcançaram Gyantse e Xigatze no Tibete.
Tal como Estevão Cacella (1585-1630), como João Cabral (1599-1669) que ali chegaram, respectivamente, em 1627 e 1628, outros missionários Jesuítas partiram em busca de um reino cristão que acreditavam existir para lá dos Himalaias: o Cataio.

Mosteiro de Tashi Lumpo. Shigatse. 1991 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Interior do Mosteiro de Tashi Lumpo. Shigatse. 1991 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
O primeiro deles foi Bento de Goes que saíu de Goa em 1602, tendo atravessado a Ásia Central e alcançado Suzhou, uma cidade da província de Jiangsu, em 1606. Ali faleceu um ano mais tarde, tendo demonstrado ao fim dos 4 anos que durou a sua viagem que o reino do Cataio e o reino da China eram, afinal, o mesmo.

Mas a demanda do Cataio prosseguiu. Para além da leitura da carta de João Cabral e Estevão Cacella que foi pretexto para a nossa viagem, recomendo a leitura da viagem de Bento de Goes. Por se terem perdido os originais manuscritos, é hoje conhecida pela escrita de um outro Jesuíta que lhe foi contemporâneo: o Padre Mateo Ricci (1552-1610).
Para quem não conhece, recomendo a leitura de Viagens na Ásia Central em Demanda do Cataio: Bento de Goes e António de Andrade.

A nossa viagem destinava-se a fazer o reconhecimento do percurso de Estevão Cacella e de João Cabral no âmbito da pré-produção de um documentário sobre a viagem destes Jesuítas. Filmei e editei então um vídeo intitulado Itinerários do Oriente. O projecto foi apoiado pela Comissão Nacional dos Descobrimentos.

Mercado de Shigatse. 1991 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Mercado de Shigatse. 1991 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Mercado de Shigatse. 1991 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
A revista Oceanos publicou no seu nº 12 intitulado Os Jesuitas e uma ideia de Portugal, um artigo de Rosa Maria Perez: Uma aventura Seiscentista: Jesuitas Portugueses nos Himalaias (1992). Foi ela quem coordenou a equipa, da qual faziam parte o Filipe Verde e o João Matias.

A leitura destas viagens surpreende por vários motivos. Desde logo porque estes missionários tinham uma motivação excepcional para fazerem estes percursos em condições difíceis e até penosas. Nalguns momentos, deparavam-se com situações de extrema adversidade, chegando mesmo a ter a vida em risco.

Lembro-me bem durante esta viagem de conversarmos sobre a circunstância de estes jesuítas serem, de algum modo, pioneiros do que veio a ser, séculos mais tarde, a antropologia. Para continuarem a prosseguir caminho esta abertura para a mediação era um desafio que estava constantemente presente; até na forma de se vestirem, para passarem despercebidos, negociarem ou relacionarem com aqueles com quem se cruzavam.

Tibete. 1991 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Tibete. 1991 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
Para chegarmos ao Tibete tivemos de entrar pela China que ocupou este território em 1951. A partir de Hong-Kong, fizemos escala em Pequim e Chengdu para finalmente aterrarmos em Lhasa, o lugar dos Deuses na língua Tibetana.

A aproximação é feita percorrendo um infindável vale ladeado por duas altas cadeias de montanhas que praticamente se prolongam até aterrarmos. Esta é uma das cidades mais altas do mundo, tendo uma altitude de cerca de 3.600 m.

Quando cheguei a Lhasa, senti com em nenhum outro lugar que estava literalmente noutro mundo. Não só pela força da paisagem, como por todos os sentidos estarem despertos a sensações que nunca antes havia experimentado. Até a respiração é diferente dado o ar ser mais rarefeito a esta altitude. Por isso me cansava mais e dormia de uma forma que me era estranha.
Para além do impacto da altitude no nosso corpo, as paisagens daqueles vales, montanhas, lagos imensos, os sons com que nos cruzamos, desde os mosteiros e dos monges, às ruas e mercados, pelos lagos, permanecem presentes para o resto da vida.

No trajecto entre Lhasa e Gyantse, atravessamos o lago sagrado Yamdrok Yumtso, que atravessa um ponto de passagem, o Gampa Pass, com 5.000 m de altitude. Estamos por entre as cordilheiras mais altas do mundo. Não é fácil a adaptação à altitude em zonas muito próximas de neves perpétuas. Ao mínimo esforço, a respiração é quase ofegante.

Lago Yamdroktso. Tibete. 1991 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Lago Yamdroktso. Tibete. 1991 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
De partida para Kathmandu, o comandante do avião da linha aérea chinesa avisa os passageiros que estamos a passar a fronteira para o Nepal e adianta que no centro das montanhas que se descobrem por entre as nuvens está o Evereste.

Ainda que dentro do avião, ver o pico mais alto do mundo mesmo ali em frente foi inesquecível. Como foi toda aquela viagem que iríamos dali prosseguir pelo Nepal, Bangladesh e Índia.
