O QUE FAZER DO SABER ?

Se eu pudesse passar o saber que está “aqui

e passasse assim para “aqui”,

era agora mesmo.

Isso era se fosse lá mais para trás,

aprendendo,

enfim…

Domingos Melo. São Brás. São Miguel. Açores. 2019 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados. Cortesia Welcome Center da Ribeira Grande.

Foi na sua oficina em São Brás, no concelho da Ribeira Grande, na Ilha de São Miguel, Açores, que conheci Domingos Melo.

Estávamos em 2019. A convite da Santa Casa da Misericórdia do Divino Espírito Santo da Maia, preparava então os conteúdos audiovisuais que iriam integrar o Welcome Center da Ribeira Grande que está sediado junto ao Museu do Tabaco da Maia.

Filmei-o durante uma manhã. Não fosse a rodagem que tinha pela frente, teria continuado a documentar a nossa conversa pelos dias que se seguiram. Apetecia-me muito. Mas não era possível fazê-lo.

Domingos Melo. São Brás. São Miguel. Açores. 2009 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Domingos Melo. São Brás. São Miguel. Açores. 2009 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Domingos Melo. São Brás. São Miguel. Açores. 2009 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Domingos Melo. São Brás. São Miguel. Açores. 2009 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Domingos Melo. São Brás. São Miguel. Açores. 2009 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Domingos Melo. São Brás. São Miguel. Açores. 2009 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Domingos Melo. São Brás. São Miguel. Açores. 2009 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Domingos Melo. São Brás. São Miguel. Açores. 2009 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Domingos Melo. São Brás. São Miguel. Açores. 2009 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Domingos Melo. São Brás. São Miguel. Açores. 2009 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Domingos Melo. São Brás. São Miguel. Açores. 2019 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados. Cortesia Welcome Center da Ribeira Grande.

O pai de Domingos era marceneiro. Fazia instrumentos de lavoura e caixas para o chá Gorreana que se destinava à exportação.

Comecou muito cedo.

Era muito perfeito no que fazia.

Foi ele quem o ensinou e lhe foi dando as ferramentas à medida que conseguia e lhe faziam falta.

Quando era pequeno poderia ter ido para a Escola Industrial, mas as dificuldades vividas em casa não o permitiram. A oficina foi por isso o lugar onde aprendeu ao longo da vida e o pai o seu Mestre:

Veio a ensinar três filhos.

Foi a primeira oficina que abriu e agora vai ser a última a fechar…

Ele ensinou a todos. Todos foram muito bons.

Agora desses todos que ele ensinou, só sou eu que estou vivo.

Domingos Melo. São Brás. São Miguel. Açores. 2019 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados. Cortesia Welcome Center da Ribeira Grande.

A CADEIRA DE LUÍS XV

Nunca gostou de tabernas.

Na altura não havia para onde se fosse.

Não havia televisão.

Não havia essas coisas.

Por isso aos domingos ía à missa e depois “entretinha-se” na oficina. Dizia para si mesmo:

Vamos lá a ver se eu faço isso.

Enquanto cresceu a aprender o ofício de marceneiro, procurava aprender o restauro. Era o que mais gostava.

Durante algum tempo, sem ninguém saber, à 2ª feira trazia da igreja uma cadeira Luís XV empalhada para a oficina. Era de noite que conseguia ter sossego para aprender a fazer sem ser notado. Ao sábado, mal a igreja abria, antes da missa, levava-a de volta para que não dessem por falta.

Quando o filmei, há seis anos atrás, continuava a trabalhar no restauro. Mostrou-me com orgulho a peça de um altar com mais de 300 anos. E insiste no seu empenho em fazer bem. Estar sempre disponível para os outros conforme fazia o seu pai e os Mestres que mais o marcaram.

Oficina de Domingos Melo. São Brás. São Miguel. Açores. 2019 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados. Cortesia Welcome Center da Ribeira Grande.

SÁBIO (S) MESTRE (S)

Contou-me que, há muitos anos, procurou perto de Ponta Delgada um velho Mestre artesão que já não trabalhava para saber se poderia adquirir as suas ferramentas. Soube então que havia na família quem lhes soubesse dar uso. Mas nem por isso o Mestre se negou a ceder-lhe algumas ferramentas que lhe pudessem interessar.

É de partilha que me fala Domingos. Mas também de cumplicidade. Reciprocidade. De como passar o saber acumulado para que não termine e possa ser apropriado e continuado por quem faz. Com entrega, paixão e, como diria o meu pai, enquanto homem aprendente, com convicção, com determinação, com seriedade.

O diálogo com o Mestre foi, portanto, como é bom de ver, muito para além do destino a dar às goivas. E Domingos nunca mais se esqueceu daquele encontro como fez questão de me contar:

A RECIPROCIDADE … NO BAÚ

Quando estava a selecionar e a editar os materiais para o Welcome Center, revisitei o nosso encontro. E separei este excerto para o enviar, sem qualquer edição, para o meu amigo Álbio Nascimento com quem trabalho nestas encruzilhadas das artes artesanais há década e meia, mais precisamente desde o projecto TASA- Técnicas Ancestrais, Soluções Actuais.

Passados que estão seis anos daquela primeira partilha e agora chegados a 2025, o Álbio pediu-me para lhe voltar a enviar este mesmo vídeo para uma comunicação que iria apresentar em Barcelona no 4º Congresso Profissional de Artesanato, intitulada Transmissão e continuidade do conhecimento nas artes e ofícios

E assim, no mesmo instante, fui procurar ao “baú” este registo. E lá estava.

São Brás. São Miguel. Açores. 2009 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Oficina de Domingos Melo. São Brás. São Miguel. Açores. 2009 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Oficina de Domingos Melo. São Brás. São Miguel. Açores. 2009 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

DAR, RECEBER, RETRIBUIR

Quando precisares de alguma coisa,

eu, mesmo com esta idade,

eu explico

Nesta encruzilhada da transmissão do saber, Domingos Melo lembrou-me uma obra que muito me marcou quando estudei Antropologia: O Ensaio sobre a Dádiva, de Marcel Mauss (1923-24). Mauss estabelece uma comparação entre diferentes sistemas de dádiva na Polinésia, Melanésia e noroeste americano. A partir destes contextos destaca um princípio comum subjacente a estas trocas: a prevalência da lógica da dádiva – o dar, o receber e retribuir – que encontra, igualmente, nas sociedades ocidentais.

Neste processo assinala uma obrigação de retorno que transporta algo do doador, o hau – o espírito da “coisa” entre os Mahori, da Polinésia – ou a “marca” simbólica que se inscreve na dádiva e no ciclo de reciprocidade que se vai alargando progressivamente no espaço e no tempo.

Domingos Melo. São Brás. São Miguel. Açores. 2019 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Como referi há pouco, a deliciosa estória que Domingos Melo comigo partilhou, acabou por envolver um “velho” companheiro nestas andanças. Haveria de ser o Álbio a valorizar o registo desta partilha e a continuidade do dar, receber e retribuir entre os dois Mestres artesãos, Domingos e Manuel. Não fosse esta sua lembrança, provavelmente, o testemunho de Domingos Melo não veria tão cedo a “luz do dia”.

Cumplicidades e reciprocidades com um valor inestimável !