
Hong Kong é hoje o quarto território mais densamente povoado do mundo. O rodopio de gente e o vai vem do trânsito mais parecem um formigueiro em alta velocidade. É uma azáfama permanente que se desenrola por entre edifícios imponentes onde, no cruzar das esquinas, surgem cenários inesperados e mirabolantes.

Kowloon. Hong Kong. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Kowloon. Hong Kong. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
As limitações físicas para a sua expansão desafiam a criatividade. Desde logo na procura de um lugar para aqueles que ali residem ou trabalham. Mas também para aqueles que o visitam. Para todos poder acolher, as camas não chegam a arrefecer. Por apenas um par de horas, é possível alugar um quarto a preços de saldo e assim descansar ou gozar alguns momentos de prazer com uma companhia de ocasião.
Mas há também os “não lugares”. São feitos de quem escapa à vertigem do bulício colectivo. Parar um pouco para pensar na vida?

Ou adormecer, sem recato, à vista de quem passa.

Hong Kong parece dever o seu nome aos aromas das madeiras de agar e do incenso que ali se transaccionavam. Numa tradução literal significa “Porto Aromático”. Os encantos do porto são hoje outros. Sair de noite no ferry para o largo e ver do mar, a uma razoável distância, a enorme mancha urbana que se estende pelo horizonte e se eleva sem limites na vertical, deu-me outra perspectiva sobre este colosso urbano que parece saber como se adaptar a tudo e a todos.
Nessa primeira noite que por ali passei, foi como se me encontrasse num outro planeta. Um outro tempo que não consigo descrever ou classificar. Por muito sedutor que fosse, sentia aquele espaço como longínquo. Jamais conseguiria viver em semelhante lugar.
A TRANSIÇÃO PARA “UM PAÍS, DOIS SISTEMAS”

Nas duas vezes que visitei Hong Kong, em 1991 e em 2004, o território era tutelado por duas potências distintas: primeiro pelo Reino Unido e, um pouco mais tarde, pela China.
Foram passagens fulminantes que pouco deram para ver. Da primeira vez, por ali ficámos apenas uma noite. Chegámos de Londres num Jumbo da British Airways que se desviou da sua rota habitual sobre o Iraque por causa da guerra do golfo. Em alternativa, sobrevoou grande parte do território russo, num voo que durou mais de 12 horas.
Com uma única pista, o antigo aeroporto internacional era considerado como um dos mais perigosos do mundo. Junto às colinas que rodeiam a área edificada, era feita uma curva pronunciada para dar inicio ao mergulho final.
A descida continuou por entre arranha-céus que se encontravam muito perto da aeronave. Nesta tangente controlada, até aterrarmos, os edifícios como que cresciam, acabando a parte mais alta por ficar fora do horizonte que nos era dado a ver a partir da janela do avião.
Foi este o primeiro impacto à chegada. E o primeiro suspiro também.

Hong Kong. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Hong Kong. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Hong Kong. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
No dia seguinte partimos para Pequim num vôo da China Airlines. Mais uma escala a caminho do tecto do mundo. Na altura as autoridades chinesas só permitiam a entrada de estrangeiros no Tibete que viajassem a partir da capital.
Quando penso que aquela década se encaminhava para o final da administração britânica no território, enquanto a China continuava a descolar para se afirmar cada vez mais alto no panorama internacional, compreendo agora que estes dois voos foram, de algum modo, sugestivos de uma época que haveria de deixar as suas marcas.
A integração de Hong Kong na República Popular da China consumou-se em 1997. Dois anos depois o mesmo sucedeu com Macau. Seria assim a oriente, nestes dois territórios tão próximos que, no final do século XX, decorreria o final simbólico dos impérios coloniais britânico e português.

Hong Kong. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Hong Kong. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.reitos reservados.

Hong Kong. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Hong Kong. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Hong Kong. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
Hong Kong. 1991 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
Na China vigorava a política pragmática de Deng Xiaoping que começou a ser implementada a partir dos finais da década de 70 do século passado. Refiro-me à criação das chamadas Zonas Económicas Especiais (ZEEs). Antecipando a integração de Hong Kong e Macau, foi criada ali mesmo ao lado, em Schenzen, a primeira ZEE. Estava assim lançado mote para aquilo que viria a ser conhecido como “um país, dois sistemas”.
Previa-se que, durante meio século, ao integrarem a China, ambos os territórios mantivessem a sua autonomia administrativa, um sistema judicial independente, liberdade de imprensa, as suas moedas próprias, uma economia dita “capitalista”. Como seria de esperar, o que veio a acontecer não foi propriamente o que ditaram os acordos estabelecidos.

Hong Kong. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Hong Kong. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Hong Kong. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
COM A VERDADE ME ENGANAS…
Chegados a Pequim, depois de uma visita à Cidade Proibida e à Praça Tiananmen onde, dois anos antes, foram violentamente reprimidos os protestos estudantis, um guia chinês assegurou-nos que jamais a China cairia na armadilha em que os russos tinham tropeçado na segunda metade da década de 80.

Referia-se a Gorbachov que empreendeu um conjunto de reformas económicas para “modernizar” o sistema soviético, as quais ficaram conhecidas para a história como a Perestroika. Em simultâneo, com a Glasnost, permitiu uma abertura política do regime para, grosso modo, conforme então defendia, aumentar a participação cívica e diminuir a corrupção. No entender do guia chinês, as primeiras reformas conduziram a uma desorganização da economia planificada e a um período prolongado de crise e incerteza, enquanto as segundas permitiram o aumento dos nacionalismos e uma crítica crescente ao regime que levaram a uma profunda instabilidade, à queda do Partido Comunista e da União Soviética.
E explicou depois melhor onde queria chegar: as reformas económicas têm de ser feitas com uma estrutura política forte, porque senão o regime poderá ser posto em causa e acabar por colapsar. No final desse mesmo ano a demissão de Gorbachov seria o corolário de um desfecho esperado, espelhando o que considerava ser um exemplo de uma transição indesejada para o regime chinês.

Em Hong Kong tem-se vindo a assistir a um aumento da repressão que procura controlar uma crescente onda de protestos. A constestação denuncia sobretudo a existência de leis que limitam as liberdades civis. Decorrido metade do tempo previsto para o termo do período de transição, o que estava nos acordos parece pertencer ao passado…

E a China, conduzida pelo Partido Comunista Chinês, continua o seu caminho, numa prolongada maratona que a levará a tornar-se a maior potência económica mundial dentro de uma ou duas décadas.
Por aqui, como por lá, como se diz na gíria, com a verdade me enganas…