
Ponte sobre o Tejo. Lisboa, 2003 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Lisboa, 2003 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
Estamos a poucas centenas de metros do rio e da ponte sobre o Tejo. Cai a noite em Lisboa.
A mesma distância separa o lugar deste monólogo do Parlamento e da residência oficial do chefe do governo que, no ano seguinte, haveria de ser Presidente da Comissão Europeia.
GUERRA DE MENTIRAS E VAIDADES
O mundo parecia estar em sobressalto naquele dia 22 de Março de 2003.
Dois dias antes as tropas americanas tinham acabado de entrar no Iraque para derrubar o regime de Saddam Hussein. Legitimaram a invasão com a existência de armas de destruição em massa naquele país. Dois anos depois, um relatório da CIA veio a confirmar que afinal não era assim. Nunca existiram.
Na tarde do dia 16 de Março desse mesmo ano, ficou para a história a Cimeira das Lajes e o retrato de Durão Barroso nos Açores a receber Bush, Blair e Aznar quando foi decidida uma guerra que a ONU não sancionou. Mais tarde, quando já se sabia da mentira, o Primeiro Ministro vizinho haveria de considerar aquele retrato como a sua melhor fotografia.

“A DEMOCRACIA É PARA TODOS!”
O personagem deste monólogo combateu em Angola. A pressão mediática que na altura se focava em contínuo na invasão do Iraque e que se ouve bem alto no rádio do seu carro, terá seguramente contribuído para o que então assisti.
A meia dúzia de metros da porta da residência de um antigo Primeiro Ministro que viria, alguns anos mais tarde, a ser Presidente da República, um reformado sem reforma, inconformado, grita desesperado a sua revolta.
Parece claro quem é o seu destinatário. A voz ecoa em toda a rua. Para quem o queira ouvir:
-Não tenho medo de qualquer indíviduo!
É dentro do carro que denuncia as injustiças de que se diz vítima: apesar dos repetidos apelos que tem feito, não recebe qualquer prestação social e vive com extrema dificuldade. Ninguém o parece escutar.
– Não tenho reforma nenhuma, pedi um subsídio. Tenho o stress da guerra, ninguém me ajudou. Até hoje! Como carne crua, bichos, nem documentos tenho !

O monólogo dura mais de meia hora. De início, enumera os responsáveis políticos do PS, PSD e CDS que contactou mas não lhe resolveram o problema. A cada queixume ou ameaça, abre a porta do carro para se fazer ouvir, fechando-a logo a seguir, com estrondo, para demonstrar a sua indignação.
– Ainda não chegou às 10 horas, que é proibido fazer barulho. posso falar. A PIDE já acabou. Isso era antigamente.
– A democracia é para todos!
Só lhe resta “armar um granda escândalo nas televisões” e vai avisando que, se nada fizerem para o ajudar, vai ao programa da Fátima Lopes, ao SIC 10 horas.
E fala dos comentadores e políticos que podem perceber de política, mas nada percebem da guerra. Alguns deles ainda estão no activo desde então:
O Paulo Portas percebe é de política. Mas de guerra não percebe nada.
O Senhor Doutor Durão Barroso, percebe é de política, mas de guerra não percebe.
(…) O Nuno Rogeiro só percebe é de política. Da guerra percebe alguma coisa…
A voz alterada vai perdendo a veêmencia inicial para um registo mais calmo e até confessional:
Há 3 noites que não durmo, desde que começou a guerra.
Até que sai do carro e deixa de gritar. Como que falando para si próprio, percorre a rua com a ajuda das muletas. Afasta-se, lentamente, abafado pelo som de um avião acabado de levantar da Portela.
Foi este um monólogo amargo e sofrido.
Sem cavaco.