
Em 2010 participei com o documentário A Casa do Barqueiro no Festival de Documentário Cronograph em Chisinau, na Moldávia.
Terminado o Festival e pouco antes de regressar a Lisboa, desloquei-me a Old Orhei, um lugar arqueológico próximo de Butuceni, uma pequena aldeia situada no mesmo vale contornado pelo rio Raut.
Foi uma deslocação fortuita. Decidida no momento. Não há como desperdiçar a oportunidade.
Sem conhecimento do que irei encontrar e tendo poucas horas para ficar, fica a vontade de ficar mais tempo e a consciência do pouco que se entendeu sobre as pessoas com que me fui cruzando.
VIZINHOS DESAVINDOS E IMPASSES POR RESOLVER

Rio Raut. Orheiul Vechi. Moldávia.2010 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Trebujeni. Moldávia. 2010 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
A fronteira da Ucrânia situa-se apenas a 30 Km deste lugar. Esta é uma região da zona central-leste do país, situada a menos de uma hora da capital do país e a cerca de 15 Km da fronteira com o enclave da Transnistria.
Desde 1990 e ainda antes da desintegração da antiga União Soviética que este território declarou unilateralmente a sua independência da Moldávia. Depois de algumas escaramuças com as forças separatistas, foi conseguido um cessar-fogo mediado pela Rússia que se mantêm até ao presente.
Este continua a ser um dos conflitos congelados do espaço pós-soviético.
POR ENTRE DESFILADEIROS E UM RIO QUE SERPENTEIA
As vias sinuosas que contornam o rio e os montes não têm praticamente movimento. Aqui e ali são percorridas maioritariamente por agricultores que se deslocam a pé ou em carros com tração animal. As curvas, descidas e subidas são como metáforas de um passado recente que se esboroou e de um novo tempo, ainda incerto, por percorrer.

OS QUE FICAM

Foi em Agosto de 1991 que a Moldávia declarou a sua independência da União Soviética que a anexou em 1940. Foi durante esse período a República Soviética da Moldávia. Antes, durante pouco mais de duas décadas, mais concretamente a partir de 1918, grande parte do território actual fazia parte da Roménia.
Para além da agricultura e pecuária de que se ocupa, sobretudo, uma população mais envelhecida, são escassas as oportunidades de trabalho que ali existem. Poucos foram os jovens que ficaram. Uma boa parte destes emigrou em busca de melhores salários e oportunidades para a capital, Chisinau, para países próximos, como a Rússia e a Roménia, bem como para europa.
Tal não foi o caso da rapariga que encontrei na mercearia local. Não parecia haver por ali muito movimento e fiquei a pensar se ela não esperava uma melhor oportunidade na vida que a levasse, como a tantos outros, a ter de sair daquela aldeia.

Mercearia. Trebujeni. Moldávia.2010 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Mercearia. Trebujeni. Moldávia.2010 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
Em Trebujeni encontram-se algumas casas restauradas por emigrantes. Regressam uma ou duas vezes por ano, sobretudo no verão, para se encontrarem com os seus familiares.
Neste contexto de incerteza, alguns dos mais velhos ainda são nostálgicos da era soviética onde havia garantia de emprego e uma sensação de segurança económica. Mas para muitos outros há a vontade de aderir à Europa onde se projecta um futuro que abra portas ao investimento em infra-estruturas, possibilidade de circular e trabalhar noutros países mais facilmente.

Trebujeni. Moldávia.2010 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Trebujeni. Moldávia.2010 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Trebujeni. Moldávia.2010 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Butuceni.Moldávia.2010 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados

Trebujeni. Moldávia.2010 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Trebujeni. Moldávia.2010 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Trebujeni. Moldávia.2010 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Trebujeni. Moldávia.2010 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
Quando não se conhecem os lugares, há sempre a tendência para procurar referências em relação aquilo que conhecemos. E, de forma superficial, porventura equívoca, muito do que encontrei e fotografei me fez lembrar o meu país e, mais concretamente, a zona saloia, perto de Sintra, onde cresci.
Mas é evidente que esta percepção está longe de corresponder a uma leitura que atenda às especificidades e nuances deste lugar que, seguramente, não terei entendido. E fica sempre a vontade de voltar. Talvez um dia.