A CASA DO BARQUEIRO

Barca da Amieira. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

O que eu queria era correr mundo !

Na Barca de Amieira, Paulino é o barqueiro que assegura a ligação entre as margens do Tejo. Faz da barraca sobre o rio a sua casa improvisada. Ali guarda de tudo um pouco, cozinha, faz a barba e prepara o bigode, recolhe quando a chuva, o frio ou o vento apertam. Pede e resmunga uma nova casa em condições.

O filme acompanha o último barqueiro durante quatro estações. No inverno e no outono, perto da fogueira sobre o vale do rio, num compasso de espera alterado pela passagem dos comboios que raramente trazem fregueses. Na primavera e no verão, na mesa de sulipas, solitário, na partilha de um copo ou petisco com quem por ali se cruze. Até que um passageiro desça do comboio ou se apresente na margem para o apanhar.

Agora já não há Barqueiro e a nova casa continua por estrear. Não há mais barcagens para ninguém.

E POR LÁ FIQUEI

Mais do que faz um guardador das margens de um rio que por ali se instalou há cerca de vinte anos, interessava-me conhecer quem era esse personagem. E foi por isso que, tendo ouvido falar do barqueiro, procurei a Amieira do Tejo, desci a estrada até ao rio e me apresentei.

Já pensava em fazer um documentário antes de o conhecer.  Depois acabei por ficar a morar por perto, na Amieira do Tejo, durante mais de um ano.

Parti sem saber se dali resultaria o documentário começado e do qual havia reunido já mais de vinte horas de gravação. De barqueiros só conhecia o «Auto da Barca do Inferno» do Gil Vicente. Construíra a imagem de um personagem ambivalente, ora Anjo, ora Diabo, diligente e astuto e pouco mais.

Barca da Amieira. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

O processo de conhecimento do barqueiro da Amieira começou praticamente com a câmara. Era este processo que no início me interessava, sem quaisquer ideias pré-concebidas acerca de por onde começar ou para onde seguir. Tinha disponibilidade para o filmar e para aguardar o que viesse a acontecer e ele não se importava nada, antes pelo contrário, estava contente com a companhia.

O que veio a resultar no filme, foi sendo construído desde a primeira hora de captação até ao momento em que se iniciou o processo de selecção de imagens para edição.

A intenção nunca foi a de dirigir o personagem, mas deixar que este me levasse a conhecer o seu ritmo. Dos dias, dos meses, das estações que iam passando. Havia dias em que descia, mas nem levava a câmara. Noutros, ainda assim poucos, pelo olhar dele percebia que não estava disponível.

Um ano depois de o ter filmado durante as 4 estações, aconteceu o inesperado. Uns meses mais tarde, já no final das filmagens perguntou-me:

– Quer ir ao outro lado?

E mais não adianto. Convido quem lê estas linhas a ver o documentário se ainda não o fez.

A CASA DO BARQUEIRO NO DOC LISBOA

Barca da Amieira. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

A estreia do documentário aconteceu no Grande Auditório da Culturgest no dia 22 de Outubro de 2007. Foi então distinguido com 2 prémios na 5ª edição do Doc Lisboa.

  • Prémio Sony para a melhor primeira obra;
  • Prémio IPJ Escolas.
Procissão da Senhora da Sanguinheira, Amieira do Tejo. 2010 © Cláudia Freire. Todos os direitos reservados.

Terminado o filme, depois dos prémios e das estreias, continuámos amigos. Mesmo depois de deixar a Amieira do Tejo visitei-o com saudades dos seus resmungos e boa disposição.

Graças à cumplicidade e amizade de um amigo e da sua família que me arranjaram casa para ficar enquanto fazia o filme – sem esta o doc nunca teria existido – foi organizada uma homenagem aos barqueiros da Amieira.

Passeios de barco até à outra margem, churrasco, cerveja e bebidas à descrição fizeram parte do programa. Junto ao Tejo, foi descerrada uma lápide em homenagem a todos os barqueiros.

Amieira do Tejo. 2010 © Cláudia Freire. Todos os direitos reservados.

O Paulino ficou radiante e creio que nessa altura terá sentido que, mesmo já não sendo barqueiro, a sua missão era agora reconhecida e valorizada pelos seus conterrâneos.