
5 de Julho de 1975. Cabo Verde fez descer a bandeira portuguesa para içar a bandeira de um novo país independente que soube construir o seu futuro.
Apostou desde o início na Educação como nenhum outro em África conseguiu fazer. Se o arquipélago dispõe de poucos recursos naturais, passados que estão 50 anos da independência, Cabo Verde tem nas pessoas a sua principal riqueza. São elas quem hoje celebra, no arquipélago e na diáspora, este dia tão especial que sinto também como meu.

Achada Biscaínhos. Tarrafal. Santiago. Cabo Verde. 1991 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Assomada. Santiago. Cabo Verde. 1991 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Achada Biscaínhos. Tarrafal. Santiago. Cabo Verde. 1991 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Serra Malagueta. Santiago. Cabo Verde. 1991 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Achada Biscaínhos. Tarrafal. Santiago. Cabo Verde. 1991 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Porto Mosquito. Santiago. Cabo Verde. 1992 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
E não foram apenas os mais novos que beneficiaram desse investimento continuado que marca a diferença no que Cabo Verde é hoje. O esforço feito, logo a partir de 1975, na alfabetização da população, alcançou resultados extraordinários e únicos no continente. E assim foi e é com o Ensino Público. Mais tarde foi a vez do Ensino Superior. Investiu e investe também na saúde, nas infra-estruturas, em tantos outros sectores decisivos, num percurso continuado de desenvolvimento que é por todos reconhecido como exemplar.

O VIRAR DE PÁGINA QUE ABRIU O FUTURO
Até ao final da primeira metade do século passado, o arquipélago viveu ciclicamente secas mais ou menos prolongadas de que resultaram fomes dramáticas. Na segunda metade do século XVIII, chegaram mesmo a dizimar cerca de 1/3 da população ! É apenas na década de 60 que o estado colonial, pressionado internacionalmente, consegue por cobro a estas mortandades, por via do Plano de Abastecimento em Época de Seca que assiste as populações mais vulneráveis atingidas pelo flagelo.

Uma década depois Cabo Verde veio a assumir a condução do seu próprio caminho. Na altura, o legado de Cabral previa a construção de uma mesma Nação a partir de dois países: Cabo Verde e Guiné Bissau. Mas foi sol de pouca dura: em 1980, com o golpe de estado de Nino Vieira na Guiné Bissau, terminou o projecto que Amilcar Cabral tinha idealizado para o pós-independência. O Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde – PAIGC – daria lugar, um ano depois, a dois partidos distintos com a criação do PAICV, o Partido Africano para a Independência de Cabo Verde.
O pragmatismo dos primeiros anos do pós independência nem sempre foi bem compreendido no exterior.
Relembro apenas dois exemplos:
A ajuda internacional que era doada pelas instituições internacionais era gerida a partir de uma Empresa Pública de Abastecimento – a EMPA – que em lugar de perpetuar o assistencialismo, vendia os produtos de primeira necessidade como a farinha, arroz, açúcar, entre outros, para aplicar as receitas no financiamento do que então se chamava a Ajuda Pública ao Desenvolvimento.

A comunidade internacional alertou que as doações não poderiam ser comercializadas e as autoridades do país demonstraram como aplicavam as receitas dessa Ajuda. Um dos exemplos mais conhecidos foram as FAIMO – Frentes de Alta Intensidade de Mão de Obra. Nos períodos críticos, as populações mais vulneráveis afectadas pela seca eram mobilizadas para trabalhar em obras públicas. A construção de estradas, diques, o combate à erosão, eram alguns dos trabalhos realizados, sendo os trabalhadores remunerados com o financiamento da venda de produtos distribuídos pela EMPA, os quais chegavam ao país através da ajuda internacional.

Alguns anos depois, a desconfiança inicial deu lugar ao reconhecimento de que a articulação entre as doações internacionais e o modelo de ajuda pública ao desenvolvimento, passou a ser um exemplo bem conseguido que poderia inspirar outros países.

O país sabia que a sua abertura ao exterior era determinante para ultrapassar as limitações internas ao desenvolvimento, quer por causa da escassez de recursos, como por ser um espaço insular. Era toda a construção de uma Nação que estava em causa com enormes desafios pela frente.

E um outro exemplo desse pragmatismo teve a ver com a disponibilização do aeroporto do Sal à companhia aérea South African Airways (SAA) em pleno regime do apartheid. Na verdade, os sul africanos já utilizavam este aeroporto no período colonial. Mas com o embargo internacional em vigor que se acentuou na década de 80, este era então o único ponto de escala possível nas ligações para a europa e para os Estados Unidos. As elevadas compensações financeiras pela sua utilização, foram então alcançadas pelas negociações entre Cabo Verde e a África do Sul.
PARABÉNS CABO VERDE !

Em 1990 assinala-se o fim do regime de partido único. Um ano depois, Cabo Verde abriu-se à democracia com a realização das primeiras eleições multipartidárias que foram ganhas pelo MPD, o Movimento para a Democracia, pondo assim termo a 15 anos de governação do PAICV.
No percurso que tem vindo a ser feito desde a independência, com todos os problemas, adversidades e dificuldades sentidas, é inegável a mudança em curso que marca o crescimento e a maturidade da nação cabo-verdiana. Quem visita as ilhas com alguma regularidade, como acontece comigo que por lá aterrei, pela primeira vez, em 1980, tendo também, cinco anos mais tarde, ali residido e estudado, não deixa de se sentir surpreendido pelas alterações que vão acontecendo. É notável ! Que privilégio foi para mim poder crescer neste país. E sobretudo voltar para continuar a visitar os meus amigos e uma terra que irei sempre considerar como minha.
O exemplo de Cabo Verde será talvez improvável. Nos dias que correm, demonstra quanto uma aplicação criteriosa de recursos pode ter um impacto decisivo para a vida das futuras gerações. Faz mesmo toda a diferença!
Muitos parabéns Cabo Verde !!!
Sabura !!!!!
TERRA DE ARTISTAS

Achada Biscaínhos. Tarrafal. Santiago. Cabo Verde. 1991 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Achada Biscaínhos. Tarrafal. Santiago. Cabo Verde. 1991 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
No documentário Mais Alma, a Catarina Alves Costa confronta-nos, logo no começo, com a impressão comum de que, e cito:
Em Cabo Verde, a palavra artista não existe.
Quando cheguei ao fim do filme percebi que, afinal, todos os cabo-verdianos são artistas…