JOSÉ DA PAZ

José da Paz. Prado. Escusa. 2003 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

A poucos quilómetros de Marvão, no Prado, José da Paz e a esposa, Senhorinha, foram durante alguns anos meus vizinhos. Viviam numa aldeia próxima, a Escusa, e vinham todos os dias até à casa mesmo ao lado daquela onde morei.

Quando me levantava e saía para o quintal, já lá estavam. E era mesmo bom saudá-los mal nos víamos:

– Bom dia vizinho ! Como está a vizinha ?

José da Paz e Senhorinha. Prado. Escusa. 2003 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Senhorinha. Prado. Escusa. 2003 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

A minha vizinha, à esquerda, na sua casa da Escusa. 2003 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Casa de José da Paz e Senhorinha. Prado. Escusa. 2003 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

José da Paz. Prado. Escusa. 2003 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

José da Paz. Prado. Escusa. 2003 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Cuidavam de um belo pomar num terreno encaixado entre duas encostas da Serra de São Mamede. Tiveram animais e cultivaram enquanto o corpo deixou. Mas pouco semeavam agora. Já não dava mais. Iam fazendo o que podiam.

Oliveira. Prado. Escusa. 2003 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

José da Paz adorava árvores. Sobretudo as “oliveirinhas”. Com mais de oitenta anos era vê-lo em cima da escada a podar sebes e árvores, algumas já centenárias.

Neste pequeno vídeo, para além além das árvores, contou-me uma aventura com um “cão grande” quando estava na tropa. Afinal era um lobo. Confessa que ficou nervoso. Não lhe fez mal, mas ameaçou umas vacas que se defenderam como podiam.

E adianta:

– Dizem que o corpo dá sinal daqueles bichos…

Nessa mesma noite o dito lobo matou um burro.

Tínhamos belas conversas e com ele muito aprendi. Era um sábio !

José da Paz. A assistir à Procissão de Santo António que se realiza na Escusa, no início de Setembro. 2003 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Falava dos animais com a mesma ternura com que o fazia quando falava das árvores.

Um dia partilhou comigo um segredo: tínhamos outros vizinhos ali bem perto! Estes inquilinos não pagavam renda e viviam no interior do tronco de um enorme castanheiro. Há muito que os escutava de noite mas pensava que vinham de outras paragens.

Prado. Escusa. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Castanheiro. Prado. Escusa. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Prado. Escusa. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Prado. Escusa. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Prado. Escusa. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Cozinha exterior. Prado. Escusa. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Prado. Escusa. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Castanheiro. Prado. Escusa. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Castanheiro. Prado. Escusa. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Eram um casal de mochos. Ensinou-me que quando acasalavam viviam juntos para toda a vida. E eu brincava com ele: – assim é porque vêem pouco, não é vizinho? E ele riu-se.

Só depois me dei conta do disparate que estava a dizer. E nem dava para imaginar que o meus vizinhos não pudessem viver um sem o outro.

Infelizmente foi isso mesmo que veio a acontecer poucos anos depois.

Após ter deixado o Alto Alentejo, regressei para uma breve visita e foi quando soube que ficou viúvo. Disseram-me que estava num lar em Marvão. E lá fui no mesmo dia.

Prado. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Prado. 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Quando o encontrei, reconheceu-me de imediato. Emocionado, perdeu por alguns momentos a voz e o tom sereno com que sempre conversávamos.

E repetia para as funcionárias do lar e para alguns dos seus amigos com quem se cruzava:

O meu vizinho! Não se esqueceu de mim!

Sr. José da Paz no Lar da Santa Casa da Misericórdia de Marvão. 2005 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Como poderia esquecê-lo ?

Até hoje e para sempre.

O senhor José da Paz deixa saudades. Será sempre lembrado como “o meu vizinho”.

De todos aquele que mais me ensinou e marcou.