A Direcção Geral das Artes promoveu a exposição “Produção Artesanal Portuguesa – A Actualidade do saber-fazer ancestral” que representou Portugal na 4ª Edição da Bienal De Mains de Maîtres que se realizou no Luxemburgo em Novembro de 2023. A curadoria é de Álbio Nascimento e Kathi Stertzig da The Home Project Design Studio.
No âmbito da itinerância que se realizou no ano seguinte, a exposição esteve em Odemira em Junho de 2024.
A minha participação consistiu em 2 filmes realizados em momentos distintos:
1. A VOZ AQUI É O GESTO

2. A VIOLA CAMPANIÇA

A VOZ AQUI É O GESTO
Este vídeo foi feito para o núcleo da exposição a “Paisagem”.
“Desde há meio século que o cesteiro José Amendoeira colhe o vime para fazer os seus cestos. Só por caminhos de terra então se chegava à Ribeira da Azilheira que ali se aproxima da fronteira entre o Alentejo e o Algarve. O viaduto da autoestrada em direção a Almodôvar e ao Sul atravessa agora, a uma centena de metros de altura, este lugar sem praticamente lhe tocar. Mas para lá chegar, continua a ser necessário percorrer as sucessivas curvas e contracurvas que ligam o barrocal e a serra algarvia à planície alentejana.

A rodagem começou num espaço insular, na Lombinha da Maia, em São Miguel, Açores, onde pudemos observar a cardação, a fiação e a tecelagem da lã de ovelha. Seguiu-se a Cidade de Castelo Branco, onde foi documentado o processo da seda, do casulo ao tear.

Casulos dos bichos da seda. Museu da Seda. Castelo Branco. Maio 2024 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Tear. Museu da Seda. Castelo Branco. Maio 2024 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
Rumo ao Sul, no Algarve e Alentejo, deparámos com situações distintas: a moldagem do barro e a sua aplicação na cerâmica; a apanha e utilização da cana, da palma e do vime, por diferentes artesãos, para a feitura dos cestos.
De alguma forma, as paisagens que se apresentam como pano de fundo destes lugares condensam memórias, revelam-nos marcas das transformações sucessivas que ali se inscrevem. Refletem um património cultural e imaterial particular que faz parte da identidade dos lugares e daqueles que aí viveram ou habitam. Evocam acontecimentos passados, memórias, saberes e práticas reproduzidas ao longo de gerações ou até mesmo, em algum momento, descontinuadas por aqueles que ali se cruzaram, fixaram ou acabaram por partir.

Maria Valentina Silva, Boliqueime. Maio 2024 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Maria Valentina Silva, Boliqueime. Maio 2024 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
A imagem e o som aproximam-nos dos diversos protagonistas, como que os desafiando a partilhar o seu “saber fazer”. Levam-nos para a sua beira, convidando-nos a posicionar no lugar e no olhar de quem faz. A voz de cada um é, aqui, o seu gesto. Em cada e todo o momento, a sensibilidade nota-se na sua repetição, no aprumo firme dos remates com que vão dando forma e consolidam as peças.

Regresso a José Amendoeira. Como quase todos os que foram retratados neste filme, faz parte de uma geração de artesãos que estão envolvidos em todo o processo de criação das suas peças, desde a recolha da matéria-prima até ao produto final. É assim que aqui os vemos e representamos. Provavelmente, a tendência será para que cada vez mais deixem de colher os materiais utilizados na manufactura e passem a adquiri-los.

Face aos desafios que hoje se colocam a todos estes artesãos, o momento presente, porventura, acentua a profunda mudança e transformação naquilo que tem a ver com a continuidade e a reprodução destas práticas situadas, tais como as conhecemos. Fica o registo deste filme para memória futura e reflexão crítica.”
Jorge Murteira / Fevereiro de 2024
In “A Voz aqui é o gesto” Programa Nacional Saber Fazer (pgs. 255/257).
A VIOLA CAMPANIÇA
No final do primeiro semestre de 2024, a exposição prosseguiu a sua itinerância em Odemira, tenho então realizado um outro filme: “A Viola Campaniça”.

O desafio consistiu agora em documentar aspectos relacionados com a criação e construção desta Viola, assim como com a transmissão do conhecimento que se lhe associam a partir das perspectivas partilhadas por dois relevantes protagonistas conhecedores e divulgadores do instrumento: Daniel Luz e Pedro Mestre.
“Hoje já vou morrer descansado porque já sei que a campaniça não vai.
(…) Isto está longe de se perder; seria preciso proibirem de tocar!
Daniel Luz, 2024

Porque se nós não insistirmos em dizer que o instrumento tem uma base, tem uma origem, a evolução é bem mais rápida, não é?
Ela tem de acontecer, porque ninguém consegue travá-la, nem eu, nem ninguém!
Pedro Mestre, 2024
Iniciada a rodagem, as primeiras conversas gravadas demonstraram de forma clara a vitalidade e o interesse pela viola campaniça. E assim o é em relação à construção e aos programas de oficinas de construtores, bem como à aprendizagem dos tocadores do instrumento.

Para quem procura não apenas filmar o que acontece, mas contemplar a possibilidade de registar, de forma aberta, o que pode acontecer, o desafio era agora ainda mais estimulante. A programação inicial dos trabalhos, logo abriu um leque de possibilidades para a participação de outros “actores” que estão comprometidos com a viola campaniça e onde as novas gerações têm um papel determinante na sua continuidade.

São hoje vários os rostos deste processo: para além dos já mencionados Daniel Luz e de Pedro Mestre, é de salientar o mestre Joaquim Loução, o músico e professor Carlos Loução, Manuel Vilela, entre outros, e os rapazes e as raparigas, jovens e adultos que, de modo empenhado, aprendem a tocar nas aulas que estão disponíveis para quem se possa interessar; são também aqueles que aspiram a construir o instrumento e frequentam as oficinas onde os mestres partilham o seu saber e saber-fazer.

Num caso, como no outro, a transmissão do conhecimento assegurou que distintas gerações tenham hoje um papel activo e determinante para a continuidade da viola campaniça. Este processo criou dinâmicas de procura e de oferta do instrumento, respectivamente por parte dos tocadores e dos construtores.
Para que tal tenha acontecido e continue a acontecer, é também importante destacar o contributo de diversas entidades na criação de condições que são indispensáveis para o sucesso do que tem vindo a ser conseguido: refiro nomeadamente, o Município de Odemira e as Juntas de Freguesia de São Teotónio e de São Martinho das Amoreiras.

Numa conversa informal com alguns dos protagonistas envolvidos que tive ocasião de gravar na oficina do mestre Daniel Luz, Pedro Mestre dá-nos conta de “um processo que foi renascendo”, precisando depois o que considera ter sido fundamental e que tem vindo a ser aprofundado, de forma continuada e empenhada, nas duas últimas décadas:

“Aquilo que se pretendia foi-se conquistando aos poucos, que era, através dos miúdos, levar a viola para eles poderem aprender a tocar e ir para as escolas; e agora vão pais atrás dos filhos e avós, construir e tocar e tudo o mais. E o que é certo é que a viola está viva, e está boa de saúde”.
Como tantas vezes acontece, no caso da viola campaniça, o caminho percorrido não se esgotou num processo de intenções; daquilo que “gostaríamos que fosse”. Importa sobretudo aqui destacar e valorizar aquilo que é. Tudo o que, em suma, tem vindo a ser alcançado no que diz respeito à transmissão e à apropriação do conhecimento, como bem demonstram o envolvimento e o entusiamo dos que, no seu conjunto, asseguram de forma inequívoca a sua continuidade.

É, sem sombra de dúvida, um exemplo notável de valorização da diferença, digno de registo que merece ser conhecido.”
Jorge Murteira
14 Julho 2024