Este vídeo resulta do registo documental dos trabalhos de transferência de uma coleção de esculturas de uma Quinta particular, na serra de São Mamede, em Portalegre, para as instalações da Fundação Robinson que então adquiriu este espólio no sentido de o preservar, promover a sua conservação, estudo e divulgação.
Integrei uma equipa coordenada por António Camões Gouveia, da qual faziam parte, nomeadamente, a Laura Romão que me acompanhou durante todas as filmagens, tendo sido a responsável pelo trabalho de inventariação e de supervisão dos trabalhos de transporte. Colaborou também neste processo o arqueólogo Rui Lourenço que procedeu ao registo tridimensional das mais de 6 mil peças da coleção.

A PARTE SEM TODO. APONTAMENTOS DA EXPERIÊNCIA DO REGISTO EM VÍDEO DA COLECÇÃO SEQUEIRA

“Quando a Fundação Robinson solicitou a minha colaboração para registo, em suporte vídeo, da Colecção Sequeira, as orientações que me foram transmitidas centravam-se em duas ideias distintas:
No que teve a ver com o registo em vídeo, em primeiro lugar interessava valorizar a componente documental, isto é, compreender o registo do maior número de elementos que permitissem, no futuro, a reconstituição visual das alterações verificadas durante as diferentes fases do trabalho de levantamento das peças.

Por outro, considerar o meu ‘olhar’. Não me limitar a registar planos de referência, a reter os diferentes intervenientes no processo, mas antes abarcar a minha relação com as peças e o seu conjunto, deixando-me influenciar pelo confronto pessoal que a Colecção suscitava.
Deste processo resultaram perto de 14 horas de gravação. O vídeo aqui apresentado fez parte da instalação da Coleção na Igreja de São Francisco em 2011. (…)

Todas as peças ali se assumem como diferentes na sua relação com o espaço, mas todas elas representam afinal uma mesma imagem que se sucede para lá da exaustão; a marca da Cruz e o Cristo, ora de braços abertos, ora decomposto da sua imagem original, sobrando apenas parte dos membros pendurados de forma desconcertante. Era como se ali, à minha frente, do Divino se projectasse um caos para além de todos os limites conhecidos nas representações apocalípticas.

Quando me foi possível finalmente deixar de ter obstáculos físicos, refiro-me concretamente ao aglomerado de peças que foi sendo retirado e que me impediam de me me aproximar conforme a minha vontade, comecei a desfrutar de imagens feitas à escala, ou seja e em muitos casos, no mesmo nível que estas se encontravam: no chão.

Nesta fase, cada vez que parava para pensar a forma de continuar o trabalho, as hipóteses pareciam-me cada vez mais aliciantes. Curiosamente, no final era quando tinha mais segurança e domínio no desenrolar da captação. E, talvez porque terminada a emergência do registo, fosse maior o prazer no trabalho proporcionado pela empatia com as peças.

Mas essa empatia resultava em grande medida de estas terem sido gradualmente desvendadas de um todo que nunca conheci ou entendi, ganhando posteriormente uma multiplicidade de sentidos naquele espaço particular.
Como se de uma fiada diacrónica se tratasse, agora recuperando ou enxertando o tempo no sentido inverso: uma a uma retiradas de onde alguém as deixou, e voltou a deixar anos a fio para afinal, em poucos meses se retirar e voltar a retirar até o espaço ficar vazio.”

in MURTEIRA, Jorge “A parte sem todo. Apontamentos da experiência do registo em vídeo da Colecção Sequeira” Publicações da Fundação Robinson 9, 2008, pg 6-9.
Pode aceder à publicação da Fundação Robinson aqui: