
Com quase dois séculos de existência, a corticeira Robinson encerrou em 2009. O documentário parte da última fase de laboração da fábrica. Apesar dos meses acumulados de salários em atraso, os operários mantêm-se em actividade para tentar assegurar a sua continuidade. Sem o conseguirem.
Acompanhando o trajecto de alguns deles após o encerramento, revela-nos, depois, a memória e o quotidiano dos que permanecem no desemprego sem saber o que lhes reserva o dia de amanhã.
Confronta-nos com o impacto do fim de uma Era Industrial. De uma sociedade que descarta as pessoas quando já não lhes reconhece qualquer utilidade.
PONTO DE PARTIDA
O desafio inicial que me foi proposto em 2005 pela Fundação Robinson e, mais concretamente, pelo Professor António Camões Gouveia, consistia em documentar a memória dos operários, a sua relação com as máquinas, as sociabilidades existentes, quer dentro do espaço fabril como fora dele. O propósito desta recolha consistia, em concreto, para além do documentário, em preparar um acervo videográfico para o Museu que seria ali futuramente instalado.

Interessava perceber a relação dos operários com as máquinas e com a fábrica. O seu conhecimento, rotinas, percursos profissionais, a circulação no próprio espaço, experiências ensaiadas com maior ou menor sucesso.
Mas também refletir o meu próprio olhar sobre este período conturbado da corticeira, considerando as mulheres e os homens que ali viveram uma boa parte da sua vida e que viam o seu futuro ameaçado pelo encerramento da fábrica.
NO INTERIOR DA FÁBRICA: O “NEGRO”
A espera por autorização para poder filmar no interior da Fábrica durou dois anos. A Fundação Robinson procurou reunir as condições para que pudesse concretizar a documentação em vídeo da memória dos operários e dos últimos tempos de laboração, mas existia uma firme oposição a que tal acontecesse por parte dos responsáveis da Administração da Fábrica.
Os trabalhos decorreram por isso inicialmente no exterior, apenas com aqueles que ali haviam trabalhado no passado. Mas não com os operários que continuavam a fazer parte da cadeia de laboração por terem medo de represálias.

Foi já perto do fecho definitivo que tive autorização para entrar e filmar.
Curiosamente, foram aqueles que não me deixaram fazê-lo durante um período decisivo, quem me abre as portas para registar a “secção do negro”, uma das poucas secções que restavam entre o que era possível documentar do processo produtivo.
Era agora claro que todas estas imagens e sons eram património de Portalegre e não de interesses particulares alheios ao que verdadeiramente estava em causa.

A cadeia de produção estava fragmentada. Os trabalhos realizavam-se com a participação concertada de praticamente todos aqueles que ali se mantinham, num esforço imenso, que acabou, afinal, por ser vão.
Muitos dos operários que eram responsáveis por tarefas especializadas dentro da referida cadeia de produção, não aguentaram mais a falta de pagamento dos salários tendo acabado por desistir. Alguns deles, por continuarem a acreditar, ou por não terem alternativa, mantiveram-se até ao fim. Houve mesmo quem tivesse posto termo à vida pouco tempo depois do encerramento.
Estas foram talvez as filmagens mais expressivas da laboração. Foi o canto do cisne. Duas semanas depois a fábrica fechou.

Fábrica Robinson. 2009 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Fábrica Robinson. 2009 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
PERSONAGEM COLECTIVO
Uma das preocupações que me foi transmitida por parte dos responsáveis pelo projecto, a Fundação Robinson, consistia em procurar fazer o levantamento videográfico alcançando a maior representatividade possível dos “actores” que se movimentavam em torno da fábrica.
Foi preciso primeiro ganhar a confiança dos que aceitaram participar. Respeitar os seus silêncios e deixar que através de um contacto inicial feito em circunstâncias tão difíceis, se fosse estabelecendo alguma relação. Nalguns casos isso acabou por ser possível marcando toda a diferença na forma como a captação pôde ser feita. Mas o tempo dentro da fábrica estava prestes a esgotar-se e era cada vez mais claro para todos que pouco, ou nada, havia a fazer a esse respeito.

Para além dos operários, a fábrica também fez parte da construção desse personagem colectivo. Multifacetada, suscita sucessivas adaptações por parte daqueles que com ela se relacionam e têm de enfrentar, a cada dia, novos desafios. Muitos deles viveram uma vida inteira ali dentro. Passam a confrontar-se com a ameaça do fim da laboração, constatando depois o esgotamento do sentido que sempre lhe atribuíram.
Este espaço conventual – na sua vocação original – faz-se cenário enquanto palco inspirado na revolução industrial. O anacronismo é vincado pelas luzes e sombras das galerias, pela reverberação do som dos ruídos das máquinas que ainda trabalham. Pelos (quase) silêncios interrompidos por animais que ali habitam e se confundem com a própria corticeira. É o caso da cadela Falida que se destaca entre os personagens do documentário.

“(…) Alguns animais de estimação povoam esta comunidade, entre eles a cadela de nome Falida, que também busca em vão a fábrica onde tantos anos foi acarinhada e alimentada pelos operários. Suspeitamos que ainda existe nela, dalguma forma, uma consciência de classe.
Este documentário de Jorge Murteira sobre a fábrica Robinson, assim, mais do que revelador duma antiga unidade industrial, é espelho duma perene condição humana, cheia de claridades e sombras, tal como a velha fábrica em ruínas.”
MURTEIRA, Mário, “Os operários da Fábrica Robinson”, in Publicações da Fundação Robinson, nº 22, 2012, p. 28.

OS SONS DA FÁBRICA
Partilho algumas paisagens sonoras destes espaços. Para além das filmagens, tive ocasião de fotografar e registar o som do que restava da laboração da Robinson:
// Autoclaves
// Sirene da fábrica
// Forno
// Carregar o forno com a lenha
PARA QUE CONSTE

“Este documentário realizado em Portalegre, no Norte Alentejano, não se esgota nesta cidade, nesta região ou mesmo em Portugal. Centra-se em homens e mulheres detentores de práticas e saberes especializados que deixaram subitamente de exercer a sua actividade ficando sem qualquer perspectiva segura sobre o que o futuro lhes reserva.
(…) Nestes tempos incertos e de mudança, o contributo destes materiais e deste filme é também o de não deixar cair em esquecimento os antigos operários da Fábrica Robinson. Para que conste.”
MURTEIRA, Jorge, “Um caminho longo para memória futura”, in Publicações da Fundação Robinson, nº 22, 2012. pp. 18-25.
Em baixo pode aceder à revista sobre o documentário que foi publicada pela Fundação Robinson:
A PROPÓSITO DA IDEIA NUNCA ABALA

Em Maio de 2024, apresentei o documentário na Cooperativa Operária Portalegrense.
No dia a seguir à projecção houve um debate em torno da “Inovação Social”, promovido no âmbito das 5 Jornadas do Serviço Social, organizadas pelo Instituto Politécnico de Portalegre .

O documentário fez parte de um projecto ambicioso promovido pela Fundação Robinson e pela Câmara Municipal de Portalegre que pretendia instalar uma nova centralidade no espaço da Fábrica Robinson. Para além de um Museu dedicado à corticeira, havia a intenção de ali criar novos espaços culturais e de serviços. Pouco resta hoje para além da Escola de Hotelaria que continua a funcionar.

Alguns dos ecos do debate que então ali tivemos foram, no mês seguinte, pretexto para um artigo de Abílio Amiguinho no Alentejo Ilustrado.
