Na rodagem do documentário TASA – Técnicas Ancestrais, Soluções Actuais, conversei com o pastor José Mestre enquanto cuidava do seu rebanho de ovelhas que pastavam na Serra de Tavira, entre Cachopo e Vaqueiros, muito perto do Alentejo.
Contou-me dos cardadores que fiavam e que por ali terão existido muitos artesãos que faziam mantas com lã de ovelha. A sua mãe ter-lhe-á deixado várias quando faleceu de que continua a fazer uso.

A minha mãe que Deus tem, fez mantas e deixou para os filhos. A gente eramos quatro. Todos levaram mantas para se tapar enquanto em vida deles. Hoje é que uma pessoa querendo fazer uma manta dessas já não havia nem quem cardasse nem quem fiasse.
Uma manta daquelas de lã vale três de algodão!
Apareceu depois um amigo de mota que parou alguns minutos para nos cumprimentar e conversar. São poucas as pessoas que cruzam aquelas paragens e há que aproveitar dois dedos de conversa.

São de uma geração que ainda conviveu com aqueles que trabalhavam na manufactura. Lembrou o pastor que em Castro Verde, no Lombador e sobretudo em Sete, todos se dedicavam ao ofício e a tradição estava há muito enraizada; parecia até que ensinavam os filhos antes deles nascerem.

– Isto é um dizer, está ouvindo? Mas aquilo … não havia… e hoje está igual, não haviam trabalhos não havia nada e eles eram putinhos novos que saíam da escola – nesse tempo iam à escola já – e depois não tinham mais nada que fazer, vinham com o pai… com umas cardazinhas miudinhas; faziam assim um rolo “coiso” e o pai acabava de cardar! Para comer… e já depois levavam um tanque que dá arrate, os pais. E os filhos onde estavam lá comiam. Pois. Isso faziam sempre uma temporada de um mês ou dois e cardavam. E era assim que essa família da Sete e do Lombador vivia. Eram todos cardadores!

Mas isso era dantes. Os tempos agora são outros e José Mestre sabe-o muito bem.
O amigo não ficou por ali muito tempo e pôs-se a caminho. O pastor indica à sua cadela para ir buscar o rebanho que se encontra do outro lado da encosta. Nônô vai cercando as ovelhas para as reunir, trazendo-as de volta para onde o dono lhe pediu.
Conversámos mais um pouco. Fez-me algumas perguntas sobre o que fazia, o que conhecia, de onde vinha… um pouco mais tarde, também eu parti para continuar a rodagem do documentário TASA.
Há pessoas que encontro e me levam a parar e ficar. Surpreendem. E com elas aprendo bastante. Mesmo! Como aconteceu neste dia com José Mestre ao atravessar a serra de Tavira.