
Na Travessa do Ferreiro, o Mestre Desidério Rocha fecha a porta de casa para abrir, logo ao lado, a porta da sua oficina onde trabalha. Assim é há 70 anos. Agora há pouca agricultura e não há mais alfaias para fazer ou consertar.
O serviço que se fazia já morreu.
Para me entreter comecei a fazer espadas;
e agora ainda vou fazer as espadas do D. Afonso Henriques!

O Ferreiro conta-nos o amor pela arte nas curtas pausas do trabalho ou enquanto repete cada gesto, na bigorna ou na fornalha. A vida de Desidério faz-se paixão. Assim foi e assim é. Ainda que o corpo lhe doa, não pára de trabalhar.

Eu nunca contei isto a ninguém!
Têm sido muitos anos de trabalho… e duro !

Oficina. Junqueira. Castro Marim. 2015 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
O documentário centra-se no discurso e acção de um homem aparentemente só. Na sua actividade quotidiana prolongada por 7 décadas. Parte dos seus gestos, ora pausados, ora bruscos, repetidos à exaustão, para se deter nas suas palavras, silêncios, encantos e desencantos. Como se tratasse de fixar um dia na vida de alguém que exerce uma profissão em extinção que ali se projecta desde tempos imemoriais, mas numa perspectiva que vai muito para além da sua actividade de Ferreiro num tempo moderno.

Interessa aqui o homem. Inquieto e permanente lutador. Inconformado e apaixonado que se supera quando menos se espera. O olhar da câmara é portanto de alguma forma ambíguo, como que incorporando a dimensão dos vários tempos em confronto. Informal por recorrer a um olhar presente, através de planos quase sempre fixos.
A par da imagem, o som privilegia a captação em aberto; o discurso directo. Ambos se complementam ao não se fixar apenas na mera descrição / enunciação de tarefas, mas também nas hesitações, desabafos, risos, momentos de pausa em confronto com o esforço ao limite de um corpo que ainda acompanha uma mente inquieta, apaixonada e determinada.

Eu tinha força… estava lá um rapaz , mais alto do que eu, mas
meteram-me logo ao malho. Meteram-me ao malho, comecei a
trabalhar, comecei a ver o serviço … era fazendo foices, era ferros
de arado, era todas as ferramentas do campo.
A Travessa do Ferreiro centra-se, em suma, num monólogo que nos transporta num só dia para a aventura da condição humana, nas suas fragilidades, inquietações, paixões, na permanente capacidade de superação. No continuar a acreditar que, na fase final da vida, a importância do que se faz e como se faz, do amor e da paixão em que se acreditou e acredita, marcam, afinal, toda a diferença.
Foi feita uma instalação em Lagos, no Laboratório de Actividades Criativas, onde Desidério Rocha se revê numa filmagem que fiz em sua casa quando assistiu ao documentário. A Espada de Dom Afonso Henriques pode ser vista aqui.