
Bernardo Santareno evoca uma época cinzenta e nebulosa. Na segunda metade do século XX, Portugal vivia mergulhado na moral e bons costumes de um Estado Novo com cheiro a bafio. Eram tempos de medo, censura e opressão, traduzidos numa apneia forçada a mando de um regime fascista que se havia de prolongar pelas décadas seguintes.
É para este sufoco que Santareno nos transporta e envolve.
Uma tempestade violenta junto à costa e o naufrágio de uma embarcação de pesca, provocam o desespero de uma família de pescadores. Anuncia-se a tragédia.Tudo parece perdido neste súbito turbilhão.
Um casal de jovens, desesperado, implora o resgate de um pai engolido pelas ondas. Se este se salvar, promete doravante cumprir um voto de castidade.
O pedido foi atendido: o náufrago acabou por se salvar, amarrando o destino deste casal a uma promessa que parece ser cada vez mais difícil de cumprir.
É este o pano de fundo em que conhecemos os personagens desta peça. Vivem numa sociedade deprimida e enclausurada. É preciso manter as aparências custe o que custar. O quotidiano torna-se tenso e insuportável. Até quando?
Neste mergulho pelas contingências da condição humana, a verdadeira tragédia ainda estava para chegar.
PARA ALÉM DA TEMPESTADE
A minha estreia no Teatro veio por meio do Francisco Leal que me desafiou a fazer a captação de imagem de um conjunto de vídeos para a peça A Promessa, de Bernardo Santareno, encenada por João Cardoso numa produção da Assédio Teatro.
A ideia inicial do desafio consistiu em fazer cerca de 4 vídeos, em slowmotion, a partir de planos fixos, registando ao longo do que restava do ano e até à entrada do verão, vários estados de mar.
Interessava fazê-lo num contexto de proximidade, posicionando o espectador, sem referência no enquadramento da linha do horizonte, num patamar o mais baixo possível, para dar escala à ondulação.

Na cadência em que se embrulha, o mar não vacila quando está bravo. A partir da costa, em instantes, parece ganhar força para, logo a seguir, a começar a perder, diluíndo tamanho, espessura e cor, desfazendo-se em espuma até às rochas ou ao areal. Ilusão de pouca dura; num novo ciclo, lá vem outra, e mais outra e outra a seguir… sem parar. E é assim que o vemos, escutamos, sentindo por dentro os seus humores.
Porque intemporal, parece não ter tempo no nosso tempo. É esta permanência e imprevisibilidade que procurei captar para os vídeos que fiz para A Promessa.
Por razões que têm a ver com direitos de autor, o vídeo que abriu a peça e que acima partilho, não tem a melhor parte: a sonoplastia do Francisco Leal com a música que enquadrou na banda sonora para estas imagens. Nesta versão e para poder partilhar neste site, optei por ter o som do mar tal e qual o captei.

Ainda que apenas interessasse a imagem, dado que o som seria trabalhado pelo Francisco, levei sempre um tripé para a perche. Até porque, confesso, o “mergulho” nesta escala de proximidade me foi seduzindo e desafiando, acabando por gravar muitas horas que me deram imenso gozo.
É muitas vezes assim. A procura quase obsessiva de poder ter material de qualidade que possa vir a ser seleccionado para a pós-produção e o de preferir filmar em aberto, não estando tanto focado no que acontece, mas no que pode acontecer, levaram-me durante muitos dias, semanas e até meses, a captar as ondas que se desfaziam na costa. “Quem corre por gosto não cansa”.
Um dos outros vídeos que serviu de separador entre as cenas, deveria ter as gaivotas como cenário. Afinal aquilo que acabei por encontrar foram alfaiates (garajaus comuns) que costumam perder as suas pequenas presas para as gaivotas. Se este separador de cena sugeria um período de acalmia e de menor tensão na narrativa, nem de propósito os intrusos desfilaram durante largos minutos sem que o esperasse !
No ensaio geral, antes da estreia no Teatro Nacional de São João, em Novembro de 2023, fui surpreendido por uma enorme tela translúcida com cerca de 10m de altura que cobria o palco, onde o vídeo da “Tempestade” era projectado num primeiro plano, com os actores a abrir a cena poucos metros atrás. De separador entre as cenas, o vídeo passou aqui a assumir-se como cenário durante a acção. A encenação do João Cardoso e a sonoplastia do Francisco Leal fizeram desta estreia um momento que guardarei na memória pela vida fora.
Depois da tempestade, a bonança. É bom podermos aproveitar enquanto dura.

A peça foi apresentada em diversos palcos do país. E o mar da costa da praia grande e da praia das maçãs pôde continuar a viajar depois dos espectáculos no Porto.
Como me apetecia ter ido também !

dramaturgia | Regina Guimarães
encenação | João Cardoso
cenografia e figurinos |Sissa Afonso
sonoplastia | Francisco Leal
desenho de luz |Filipe Pinheiro + Nuno Meira
captação de imagem e vídeo cena | Jorge Murteira
desenho de lutas | Miguel Andrade Gomes
interpretação |Ângela Marques, Benedita Pereira, Daniel Silva, Inês Afonso Cardoso, João Cardoso,
João Castro, Maria Inês Peixoto, Pedro Galiza, Pedro Quiroga, Rúben Pérola,
Susana Madeira
assistência de encenação | João Castro
produção executiva | Maria Inês Peixoto
© fotos | João Tuna, Teatro Sá da Bandeira – Santarém
co-produção | ASSéDIO / Teatro Nacional São João