DEVOÇÃO NA ILHA DO IBO

Mesquita Central do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

CULTURAS DO ÍNDICO

A campanha fotográfica que realizei em Moçambique, em 1996, foi feita com o Francisco Leal que efectuou a captação de som. Preparávamos os materiais para a exposição Culturas do Índico que foi promovida pela Comissão Nacional dos Descobrimentos e, no caso das fotos, para publicações que acompanharam esse projecto, como foi o caso do catálogo da exposição e da revista Oceanos n. 34. Inaugurada no Museu Nacional de Arte Antiga em 17 de Maio de 1998, assinalou os 500 Anos da Viagem de Vasco da Gama para a Índia.

Recolhemos então imagens e sons que procuravam levar os visitantes a estes lugares no presente, para testemunharem a diversidade social e cultural que marcam estes territórios da costa oriental africana.

UM PONTO DE PARTIDA OU APENAS DE CHEGADA

Vista aérea da ilha do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Vista aérea da ilha do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Vista aérea da ilha do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Vista aérea do arquipélago das Querimbas. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Há lugares que nos atraem e fascinam. Conseguimos explicar facilmente, por motivos porventura banais, o que sentimos, isto é, porque assim acontece pela sedução do exótico, da consciência de estarmos, por breves momentos, em lugares remotos e não facilmente acessíveis, onde encontramos convivências distintas que nos questionam. E porque, enquanto estranhos, sentimos estes lugares e pessoas como estando esquecidos e até de alguma maneira perdidos no tempo. No nosso tempo.

Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Mas é talvez muito mais do que isso. Confesso que me sinto influenciado pelas inquietações que o meu pai partilhava sobre as vicissitudes da condição humana. Nem me aventuro sequer a tentar explicar o que penso e sinto a este respeito. Até porque me confesso incapaz de o fazer aqui.

Adiante.

Ao longo do tempo o Ibo viveu conflitos e crises sucessivas que afectaram os que ali vivem, mas que foram, a cada momento, conseguindo superá-las e a manterem-se naquele lugar. Antes, como hoje, assim foi e continua a ser. Todas estas tensões parecem trazer uma capacidade de superação que está muito além do que conhecemos, entendemos ou poderíamos supor.

Por aqui predomina, como em toda a faixa swahili, a religião islâmica. Ainda resiste a religião católica, mas naquela altura eram poucos e já envelhecidos os fiéis e praticantes da fé cristã. Também aqui se encontram testemunhos da presença hindu, num pequeno cemitério local, ainda que já não se encontre quem pratique o hinduísmo.

Igreja de São João Baptista. Ilha do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira.

Igreja de São João Baptista. Ilha do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira.

Encontramos nesta página imagens e sons do final do século passado, a partir de dois momentos distintos que se centram na oração na pequena ilha do Ibo. Este, da Mesquita Central, e um outro, poucos dias depois, numa missa sem Padre que eu e o Francisco Leal assistimos na Igreja de São João Baptista.

Nalguns casos, a recolha foi feita num contexto de proximidade e até de uma certa intimidade com as pessoas que connosco colaboraram, como foi o caso do que aconteceu na Mesquita Central do Ibo.

NA MESQUITA CENTRAL DO IBO

Mesquita Central do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

A Mesquita Central do Ibo foi construída em finais do século XIX, mais precisamente em 1886. É este o local priveligiado de oração para os muçulmanos daquela ilha do arquipélago das Querimbas que se encontra na província de Cabo Delgado, a cerca de 200 kms da fronteira de Moçambique com a Tânzania.

Ilha do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira.

Habitada por povos bantus oriundos do interior do continente africano, acolheu a partir do século VI comerciantes árabes que ali então se instalaram. O comércio ao longo da costa oriental africana para Omã e para a região do Golfo Pérsico, atravessou o norte de que é hoje Moçambique, mas também da Tanzânia, do Quénia e o sul da Somália.

Ao ritmo das marés e das monções, os Dhows cruzaram e ancoraram nestas paragens contribuindo decisivamente para estabelecer uma continuidade cultural que se sedimentou a partir de uma língua que, apesar de apresentar algumas variantes, como o kimwani que aqui se fala, é comum: o swahili.

Os Dhows continuam a navegar um pouco mais a norte, na costa da Tanzânia. Por aqui são agora embarcações de menor porte que asseguram as ligações locais. O Francisco Leal captou em Agosto de 1996 esta paisagem sonora do barco velejando na chegada ao Ibo.

ORAÇÃO NA MESQUITA DO IBO

Mesquita Central do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Mesquita Central do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Mesquita Central do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Mesquita Central do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Foram duas as orações em silêncio aquelas que aqui assisti. Primeiro num espaço exterior, com uma mulher que me deu o seu consentimento para o fazer. Ficou imperturbável. Como se eu não estivesse ali. Depois com um homem no espaço interior, com uma pequena fresta aberta para fora. A minha presença, em ambos os casos, parece não os ter incomodado.

Mesquita Central do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Mesquita Central do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Mesquita Central do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Mesquita Central do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Mesquita Central do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Mesquita Central do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Mais tarde, assistimos a uma oração nesta mesma Mesquita que o Francisco Leal gravou integralmente e da qual aqui incluo um pequeno excerto:

Terminadas as orações é tempo de partirmos. O silêncio que prevalece no interior contrasta, depois, com a animação no exterior que se vai rapidamente enchendo de gente. Mulheres e homens saem pela respectiva porta sem praticamente se cruzarem. Sente-se uma alegria que contagia.

Mesquita Central do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Mesquita Central do Ibo. Moçambique. 1997 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Mesquita Central do Ibo. Moçambique. 1997 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Mesquita Central do Ibo. Moçambique. 1997 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

MISSA NA IGREJA DE SÃO JOÃO BAPTISTA

Durante o período colonial o Ibo chegou a ser capital de distrito de Cabo Delgado, tendo deixado de o ser em 1929, por ter sido transferida para Porto Amélia, hoje Pemba, a algumas dezenas de kms a sul. A marcas da arquitectura desse tempo são bem visíveis em parte da malha urbana da ilha. A Igreja de São João Baptista é disso também um exemplo. Pertencem a um tempo que há muito se esgotou.

Igreja de São João Baptista. Ilha do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira.

Não é por não haver pároco residente no Ibo que deixa de haver missa na Igreja de São João Baptista. E nas zonas mais próximas também não há quem ali possa acudir para apregoar e difundir a palavra de Deus. Só em Pemba. Por isso a missa que assistimos, como todas as outras, não tem padre. Mas mesmo que já não os hajam por perto, a fé continua a persistir em cada uma destas pessoas que não se conformam com o esquecimento.

Igreja de São João Baptista. Ilha do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira.

Igreja de São João Baptista. Ilha do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira.

São poucos os devotos. Algumas crianças estão presentes. A fé cristã por ali já teve melhores dias. João Baptista era o residente mais velho na ilha quando no final do século passado. Era o guardião das memórias do Ibo. Baptizaram-no com o mesmo nome do Santo que dá nome à Igreja. E à Fortaleza também. Se estiver vivo, terá hoje cerca de 84 anos.

Igreja de São João Baptista. Ilha do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira.

Abria então a porta da Igreja aos poucos fiéis que restavam. Até que alguns anos depois de ali estarmos, alguém por lá entrou sem pedir contas a ninguém. A igreja foi alvo de um atentado por parte de uma grupo fanático oriundo de Madagascar que destruiu todo o seu interior. Destruiram o altar, as peças de arte sacra, incluíndo aquela trabalhada em talha que as fotos registam.

Igreja de São João Baptista. Ilha do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira.

Não sei se depois daquele ataque continuam a rezar naquela igreja. E passados 25 anos de ali ter estado, ainda estão vivas algumas das pessoas da geração mais velha de praticantes católicos que então nos acolheram. Nem tão pouco se aquelas crianças que os acompanhavam vivem a mesma fé e continuam a abrir as portas da igrejas quase três décadas depois.

Igreja de São João Baptista. Ilha do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira.

Quando saímos de Pemba por via terrestre em direção ao Ibo, asseguraram-nos que se naquele momento haviam condições de segurança para o fazer, há pouco tempo assim não era devido às frequentes incursões da RENAMO nas proximidades da capital da província.

Igreja de São João Baptista. Ilha do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira.

Passado todo estes anos, Cabo Delgado e toda aquela zona costeira, vive uma situação permanente de insegurança, com massacres frequentes das milícias que forçam a população a abandonar as suas casas não só em direcção a Pemba, como também para a ilha do Ibo que, em 2024, acolhe cerca de 8 mil deslocados.

Igreja de São João Baptista. Ilha do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira.

Quando passamos alguns dias num território, sobretudo em áreas como esta que estão afastadas dos centros de decisão e de poder, vivendo regularmente situações de crise e de conflito, estamos muitas vezes longe de entender as pessoas que encontramos: as suas aspirações, motivações, representações, assim como toda a envolvente social que se organiza e reproduz para além do visível.

Igreja de São João Baptista. Ilha do Ibo. Moçambique. 1996 © Jorge Murteira.

Mas o ter podido partilhar em circunstâncias tão próximas e até íntimas momentos de oração na Mesquita Central e naquela Igreja de São Baptista, transmitiu toda uma atmosfera de convivência, vitalidade e proximidade que marca toda a diferença neste lugar. Foi o que senti naquilo que não poderá ser mais do que uma impressão superficial de quem passa sem ficar. Dá que pensar.