VOANDO COM WIM WENDERS SOBRE A PRAIA GRANDE

1980 © Jorge Murteira. Paulo Ochôa. Todos os direitos reservados.

OS HUMORES DO ATLÂNTICO

Crescemos juntos. Em Maio de 1966, poucos dias antes de eu nascer, foi inaugurada a Piscina da Praia Grande pelo Presidente da República Américo Tomaz. Com 100 metros de comprimento, era considerada a maior piscina aberta de água salgada da Europa. Ocupando uma parte substancial da ligação entre esta Praia e a Pequena, resiste desde então à fúria das vagas que galgam os muros para o seu interior.

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Estávamos em 1980. Poucos eram os invernos em que o mar não entrava por ali adentro provocando enormes prejuízos. Até que numa fatídica noite de Dezembro, as boias ao largo de Sines que tinham sido colocadas há poucos meses, registaram vagas com 17 metros de altura. A Piscina da Praia Grande ficou bastante destruída.

Mas a tormenta não vinha só do oceano. Existiam problemas sérios em relação à viabilidade do empreendimento que acumulava prejuízos que acabaram por ditar a sua falência. Após o 25 de Abril, depois de vários anos em autogestão, com a ameaça permanente de despedimento a pairar sobre os trabalhadores, temia-se que deste temporal pudesse resultar o golpe fatal.

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Naquele ano, o fundo da Piscina acabou por ceder. Na zona mais exposta à rebentação, parte do muro rompeu e o mar começou primeiro a espreitar, depois a entrar e logo a seguir a passear com à vontade no lado de dentro. Parecia que se anunciava uma ruína, um elefante branco ou, como veremos a seguir, uma espécie de cachalote.

DA BALEIA ENCALHADA AO ESTADO DAS COISAS

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No início da década de 80 do século passado, Wim Wenders elegeu a Piscina e o hotel como cenário e ali filmou uma boa parte do filme O Estado das Coisas.

Numa entrevista que deu, em Julho de 2017, a Pedro Dias de Almeida, na revista Visão, revela ter ficado “com várias impressões fortes dessa viagem a Portugal em 1980. Por um lado, Sintra, onde filmámos várias cenas e nos instalámos durante a rodagem. (…) E havia a vasta Praia Grande com aquele hotel abandonado, deitado ali como uma baleia encalhada. Na verdade, encontrar esse hotel abandonado, foi o que desencadeou todo o filme.”

Mal sabia o realizador que, na praia ao lado, há tempos tinha encalhado um cachalote com 16 metros de comprimento. Não conseguiram tirá-lo das rochas e teve por isso, à falta de melhor solução, de ser queimado. Mas deixemos os cetáceos moribundos, sejam eles mamíferos ou de betão.

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Tal como até há pouco tempo, eu frequentava o café e a esplanada da Piscina da Praia Grande. Lembro-me bem de Wim Wenders, que ainda não era conhecido, e da sua equipa que ali se instalaram durante uma temporada.

O AVIÃO E A FICÇÃO

E também me lembro do avião – qual totem pendurado à beira mar – que aparece no filme. Estava espetado de focinho no chão na parte norte da Piscina, o que nos causava imensa perplexidade e curiosidade.

1980 © Jorge Murteira. Paulo Ochôa. Todos os direitos reservados.

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Tinha então 14 anos e foi por essa altura que comecei a fotografar. Um amigo que trabalhava numa casa de fotografia, trazia aos fins de semana câmaras diferentes que tinham sido reparadas, com o pretexto de que era preciso testá-las antes de os clientes as virem levantar. Trazia também rolos que depois revelavam. Na semana seguinte, trazia as fotos impressas e uma nova máquina fotográfica.

Para quem começa a fotografar, não poderia ter sido melhor.

As fotos do avião e da Piscina estão, provavelmente, entre as primeiras que tirei em película de 35 mm. Mas terei sido eu a fazê-las ou o meu amigo que trazia as câmaras e os rolos? Confesso que não sei. E ele também não. “São nossas”, assegura.

Esta pode ter sido, afinal, uma primeira ficção minha, inspirada no voo encalhado do Wenders na Praia Grande. Mas do que aqui resultou é que não mais parei de fotografar.

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Wim Wenders voltou alguns anos mais tarde a filmar em Lisboa como é sobejamente conhecido.

Nessa altura, a Piscina foi também cenário para alguns planos que constam num videoclip dos U2 – Vertigo – que foi, sobretudo, filmado na margem sul do Tejo e na Praia das Maçãs.

SINAIS DOS TEMPOS

As ruínas são hoje, felizmente, memória de um passado distante e a Piscina da Praia Grande continua a resistir à força do mar, estando de invejável saúde, quase a celebrar o seu sexagésimo aniversário.

E o mar que dali vejo continuou durante toda a minha vida, até há bem pouco tempo, a inspirar-me para leituras, pensamentos e conversas com sabor e cheiro a maresia. Num silêncio que era apenas quebrado pelo som da rebentação.

Novembro 2024 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Mas acabou. A música agora instalada no exterior, como animação de fundo, fez-me perceber que aquilo que, para mim, sempre diferenciou aquele espaço, o mar, na sua plenitude, deixou de fazer sentido naquele mesmo lugar que conheço desde que nasci.

São sinais dos tempos. A música banalizou-se por todo o lado. Passou a ser um ruído de fundo a que ninguém presta atenção. Seja nos transportes, superfícies comerciais, ou nos telemóveis que impõem e sobrepõem a escolha e o gosto individual ao dos vizinhos, sem se preocupar se interferem na sua intimidade ou até se perturbam e incomodam. Nos lugares que não podemos evitar, deixou de haver escolha possível que não seja colocar auscultadores ou tampões nos ouvidos para preservar a nossa intimidade. Nos outros, é uma questão de opção.

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Como dizia o Sérgio, um amigo mais velho da adolescência, com quem convivi nestas paragens na década de 70: – “sem silêncio não há barulho”.

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Regresso a Wim Wenders e ao título do filme ali rodado, O Estado das Coisas. Envelhecemos e resistimos juntos. Mas ao contrário de mim, a modernidade parece ter chegado à esplanada da piscina da Praia Grande. Quando ambos fizermos 60 anos, não deixarei de lhe dar os meus parabéns.