Em Cabo Verde comecei o meu percurso no documentário como assistente de realização e iluminador sub-aquático. Estávamos em 1987 e estudava antropologia social depois de ali ter vivido um ano.

© Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
“Cabo Verde” é também o título do documentário que foi rodado em película (16 mm) nas ilhas do Fogo, Sal e Santiago.
O realizador João Ponces de Carvalho tinha consigo uma vasta equipa de gente nova e empenhada que deu o melhor de si para levar a produção a bom porto. Muito então aprendi; vivi muito novo uma experiência gratificante que me haveria de marcar pela vida fora.

Ilha Santiago. Cabo Verde. 1987 © João Ponces de Carvalho. Todos os direitos reservados.

Ilha Santiago. Cabo Verde. 1987 © João Ponces de Carvalho. Todos os direitos reservados.

Ilha Santiago. Cabo Verde. 1987 © João Ponces de Carvalho. Todos os direitos reservados.

Ilha do Sal. Cabo Verde. 1987 © João Ponces de Carvalho. Todos os direitos reservados.
A estreia do documentário foi por isso, para mim, uma dupla estreia. E que estreia!
A apresentação foi feita cerca de um ano depois na ilha de Santiago, na Cidade da Praia. Uma equipa do Instituto Cabo Verdiano de Cinema mobilizou posteriormente os meios indispensáveis para a projecção do filme na Cidade Velha onde ainda não havia electricidade. Para além do projector de 16 mm, foi necessário levar um gerador e equipamento de som.

Este é um lugar marcante na história do colonialismo e do país. Antes conhecida como Ribeira Grande, foi a primeira capital política e administrativa, tendo sido um lugar decisivo no período da colonização por ali ter começado, na segunda metade do século XV, o povoamento da ilha e do arquipélago. Os inúmeros testemunhos históricos edificados que, mais ou menos visíveis, permanecem naquele vale e em redor atestam-no bem.

Testes para a projecção. 1987.© Jorge Murteira. Todos os direitos reservados

Projecionista do Instituto Cabo Verdiano de Cinema convida a população da Cidade Velha para a sessão. 1987 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
Não foi difícil mobilizar os habitantes da Cidade Velha a descerem a encosta para assistirem à sessão improvisada. Com um megafone, anunciava-se que era de graça e que, para além das filmagens do lugar, também haviam imagens debaixo de água feitas na misteriosa gruta da ponta do atum.
Lembro-me bem do rodopio de gente a sair das suas casas na encosta, ao fim da tarde, a descerem em ambiente de festa para a praça, junto ao mar, onde esperávamos que caísse a noite enquanto preparávamos o equipamento.

Faltava apenas escolher o melhor local onde toda a gente pudesse ver o filme sem que fosse necessário montar uma tela de projecção. A expectativa era grande. Depois de um primeiro ensaio sem sucesso, foi mesmo atrás do pelourinho que encontrámos uma parede lisa e ampla que se ajustava ao que pretendíamos. Todos se mudaram para o novo sítio mesmo ao lado.

Com o começo da noite, foram sendo feitos testes de imagem e som com toda a gente a assistir. A expectativa aumentava. Ninguém esmorecia.

A atenção dos presentes surpreendeu-me. Viviam cada momento com interesse, sem tirar os olhos da “tela”. Até que chegou a parte ali filmada: os risos e gritos esporádicos de entusiasmo foram interrompidos por um silêncio ensurdecedor quando se viram as imagens subaquáticas da Cidade Velha.

No final, enquanto corriam os créditos, ninguém arredou pé até ao plano final da ilha do Fogo filmado do alto da Fortaleza de São Filipe. Só quando da bobine se soltou a fita voltando o luar a iluminar aquela parte da praça, as pessoas começaram a desmobilizar.

Desta estreia, guardo ainda a imagem do vulto de uma pequena espectadora que me encantou e que é bem fiel à magia daquela noite. E do cinema também.
