FÉ E PERSISTÊNCIA

Cidade da Praia Cabo Verde. 2003 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

De “verde” o arquipélago só tem o nome. É certo que durante o verão, quando chove, o chão castanho parece tocado por uma varinha mágica que o cobre de tons dessa cor numa aguarela com matizes sem fim. Semeia-se o feijão bongolom e sapatinha, mais o milho que crescem por entre a erva, para depois se mondar e colher. Nem que seja para a limária – animais – se a chuva tiver caído regularmente e em quantidade que ajude a alimentar a esperança e a manter a fé: “fé na Deus!”.

Cidade da Praia. Cabo Verde. 1987 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

É desta fé e persistência inabaláveis de quem sou testemunha desde que, em 1980, cheguei pela primeira vez a Cabo Verde. Relembro aqui umas notas que escrevi com 21 anos que se reportam, mas de algum modo se esgotam, a um dia, um local e uma festividade.

Padre Campos. Pico Leão. Santiago. Cabo Verde. 1999 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Naquele dia 15 de Agosto de 1987, era dia da Assunção da Virgem Maria, celebrando-se a padroeira da capital, Nossa Senhora da Graça. É feriado Municipal na Cidade da Praia. A praça central, junto ao coreto e à Igreja da Nossa Senhora da Graça, está mais colorida com os devotos que se vão concentrando ao início da tarde para assistir à missa.

Cidade da Praia Cabo Verde. 2010 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

DESAFIAR O CÉU CELEBRANDO A PADROEIRA

“O dia apresta-se. chegar ao fim sem que a ameaça de chuva se concretize. A cidade está quase deserta, pelo menos a parte onde as flausinas e os flausinos costumam desfilar; dia feriado é assim.

Na ansiedade de um tempo próprio tudo corre na procura de um gozo que permita superar o gosto cru do quotidiano. Se bem que se peça à chuva para participar, esta persiste em fazer-se cara desfazendo mais uma das ilusões do Ilhéus.

A Nossa Senhora permite o usufruir destes bónus (!) por quem menos nela acredita. O ritual campesino há muito foi concluído com uma fatiota especial e uma ida à missa pelo entrar da tarde. Até ao fim do dia, as multidões teimam em desafiar o céu para uma jornada de trabalho que se seguiria ao dilúvio durante algumas horas da forte chuvada tropical… adiada.

Festa de Nossa Senhora dos Navegantes. Porto Mosquito. Santiago. Cabo Verde. Outubro 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Festa de Nossa Senhora dos Navegantes. Porto Mosquito. Santiago. Cabo Verde. Outubro 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Pico Leão. Santiago. Cabo Verde. 1999 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Festa de Nossa Senhora dos Navegantes. Porto Mosquito. Santiago. Cabo Verde. Outubro 2004 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Cada pedaço de terra perdido no Oceano reclama o abandono e esquecimento eterno: “nem mesmo a chuva!”. A Morna parece eternizar o sofrimento, resignação, inspiração que vibra em cada poeta das ilhas. Por vezes, o som do violino relembra o vento agreste, enquanto os outros condimentos vão sendo entoados no refrão. O trovador canta o seu “crecheu”, enfatiza o mar distante, a partida em busca de melhores dias… preenche o ânimo com mais um copo de grogue.

Até que alguém adormeça, ou na espera de um novo dia.

Praia 15 de Agosto 1987″