
PONTO DE FUGA
Da cama via uma colina verde, para sul. Quase imaculada. Depois de horas no escuro, o sol ia despontando trazendo alguma esperança, enquanto desenhava um arco sobre a janela ao longo do dia.

Vista sul do HFF. Julho 2026 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados

Vista sul do HFF. Julho 2026 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

HFF. Julho 2026 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
Foi o meu ponto de fuga. Desviava por momentos a atenção da enfermaria e dos meus companheiros de internamento.
A paisagem, ainda sem quaisquer construções, era pontuada por alguns guindastes no cume do monte. Anunciavam o betão dos prédios que, passados dois meses, já se veem a partir da entrada do Hospital e do IC 19. O mesmo betão que prolifera na vizinhança, daquela que é uma das áreas mais densamente povoadas do país.
INTERNADO E CONFORMADO
Esta procura de evasão ocorreu enquanto estive no Hospital Fernando Fonseca (HFF), conhecido como o “Amadora-Sintra”.

HFF. Julho 2026 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados

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HFF. Julho 2026 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados

HFF. Julho 2026 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados
O internamento aconteceu em duas ocasiões: entre o final de março e meados de abril deste ano.
Foi algo que me tocou, marcou e marcará para sempre.
Vivem-se momentos especiais que não se esgotam em breves instantes. Antes se prolongam, em contínuo, no correr das horas. Dos dias. Das noites. E como são longas as noites!
As voltas ao relógio vão vincando uma crescente familiaridade com as pessoas que ali “habitam”. Aquelas que, como eu, estão deitadas numa cama, acantonadas num mesmo sítio e para quem, a cada dia que passa, o que acontece “lá fora” vai ficando mais distante.

Depois há aquelas que não param para cuidar de todos nós, entrando e saindo do hospital no fim de cada turno, mas também de cada sala, num bulício permanente.
Para ambos, há um traço comum feito de rotinas e permanências que são, por vezes, interrompidas por algo para mim inesperado.
Em relação àqueles que trabalham num frenesim para que nada nos falte, refiro-me sobretudo ao pessoal auxiliar e de enfermagem. Destaco-os porque estão sempre presentes. Alternam em turnos que eu nunca entendi muito bem como funcionam e se suportam no correr dos dias. Desde logo pela duração. Por muito que me digam que são 8 ou 10 horas, passada a noite, pouco tempo depois já lá estão outra vez.
Como é possível?

E dava por mim a perguntar-me ou a provocar alguns com quem tinha maior à vontade:
“- Mas será que vão mesmo a casa? Ou descansam nalgum dormitório por perto para poderem estar de volta tão cedo?”
Trabalham em condições extremamente difíceis e exigentes, com enorme dedicação. Evidentemente que há exceções, mas falo da grande maioria das pessoas com quem tive oportunidade de privar durante essas semanas.
Para os que ficam, como eu, mais ou menos dependentes, há sempre a esperança de que, no (s) dia (s) seguinte (s), em algum momento, lhes seja dada “alta”.

Entre os pacientes que podem rodar a cabeça por entre os tubos e aparelhos adjacentes destinados a controlar as funções vitais, há sempre a novidade das novas caras. As macas desfilam conforme a rotação dos que entram e saem a cada dia que se sucede. Com eles vivi, por vezes, uma proximidade física circunstancial.
Naquele lugar ninguém escolhe os vizinhos. A abertura ou fecho das cortinas defende-nos, reciprocamente. Em momentos mais íntimos e delicados são corridas, sobrando as vozes, por vezes gemidos. Depois voltam a ser abertas e tudo fica ao alcance da vista.
Há quem esteja consciente e com quem é possível interagir, nem que seja por gestos. Mas isso nem sempre acontece com outros. Mais ou menos apáticos, escutam-se gritos, lamentos que traduzem dores difíceis de suportar. Ou apenas uma solidão desfeita em desabafos.
A habituação nem sempre me foi fácil. O sofrimento fere. E o sofrimento alheio também. Nem sei se por momentos ultrapassa a minha dor e angústia. Tão pouco importa. Mais a mais no silêncio e no escuro. É uma outra dor. Mas que doeu, doeu.
DOS SILÊNCIOS ÀS OFENSAS
Tive, bem perto, pessoas com um estado de consciência muito difuso. Nalguns casos, têm uma visita, mas depois ficam, durante longas horas, sós e estáticas.

Em silêncio. Que até inquieta e se torna tantas vezes ruidoso.
Mas não estão entregues a si próprias. Longe disso.
Num caso particular, um enfermeiro conversava com uma senhora que era quem menos interagia dentro daquela enfermaria. Fazia-o com grande proximidade, procurando contrariar um estado que, presumo, se temia poder vir a agravar.

“- Então ? Hoje não falas comigo? “, perguntava.
Ao que ela respondia:
“- Estou cansada…
– … Eu que trabalho todo o dia é que estou cansado! Vamos lá conversar, está bem? “.
Todo aquele investimento, toda aquela dedicação onde a hipótese de “desistir” nem se coloca, também era feita respeitando o silêncio. Não para impressionar alguém, mas seguramente porque resulta de uma motivação profunda, interior, que se traduz numa imensa entrega, discreta, incondicional.
E pensar que num dia qualquer poderia falecer. Como prosseguir depois?

E eu, pela forma, pelo afeto, e por tudo o que via, me comovia. Assisti a isto, não apenas uma vez, de forma isolada, mas em diversas alturas.
Presenciei também o oposto. Auxiliares, enfermeiras e enfermeiros que foram agredidos verbalmente por terceiros. Pessoas que por ali passam e lhes chamam todos os nomes.
Vi quem fechasse discretamente uma cortina da enfermaria para resguardar uma colega. Aquela mesma cortina feita para preservar a intimidade dos doentes em tratamento ou observação. Alguns minutos mais tarde, a mesma voltou a ser aberta e a enfermeira há pouco insultada retomou o trabalho disfarçando. Como conseguia. Como se nada tivesse acontecido.

É inimaginável!
Basicamente, são pessoas que trabalham em condições muito adversas, em permanente superação e que marcam a diferença para aqueles que, como eu, como todos nós, beneficiam dos seus cuidados.
CUIDAR NUMA “MEGALÓPOLE”
O HFF encontra-se subdimensionado, todos o sabemos.
Como suspeitava a partir da janela da enfermaria virada a sul, os prédios nascem à sua volta, como cogumelos, tapando cada monte ainda virgem.

HFF. Julho 2026 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Vista a partir do HFF. Julho 2026 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Vista a partir do HFF. Julho 2026 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.
Para além da Amadora, abrange a área de Sintra que foi um dos concelhos que mais cresceu entre 1991 e 2001, crescimento esse que continuou posteriormente, embora a um ritmo mais lento.
Os cuidados básicos de saúde não conseguem responder às necessidades das pessoas que ali vivem. Por outro lado, todo aquele território conta apenas com um hospital. É certo que nalguns casos as pessoas são reencaminhadas para outros, mais próximos, onde existem outras especialidades. Mas em qualquer caso, a pressão nas urgências é tremenda.

É então o principal hospital de referência para cerca de 550 mil habitantes destes concelhos. Em contraste, por exemplo, com a área urbana do Porto que tem cerca de 1,7 milhões de habitantes, dispondo de vários grandes hospitais públicos, incluindo São João, Santo António e Pedro Hispano, distribuindo a resposta hospitalar por várias unidades.
Este tipo de comparações não é linear e até pode induzir em erro. Mas quando consideramos a região do Porto ou a região de Lisboa, que têm mais unidades hospitalares, apesar de receberem pessoas de outras áreas mais distantes, a população tende, de uma maneira geral, a ser melhor distribuída por esses mesmos hospitais.

Isso não acontece tanto no HFF que é, efectivamente, bastante pressionado.
Ao contrário do previsto, a inauguração há um ano do novo Hospital de Sintra – onde tenho sido acompanhado de forma competente e dedicada no Serviço de Medicina Física e Reabilitação – está longe de conseguir contribuir para aliviar essa pressão. Não foi criado para funcionar como um hospital com serviço de urgência geral, como é o caso do HFF. Dispõe apenas de um serviço de urgência básica, pelo que reencaminha os casos mais complexos para o primeiro.
O Hospital de Sintra está assim sobretudo vocacionado para desenvolver actividades programadas, nomeadamente consultas, cirurgias, exames, permitindo libertar o Amadora-Sintra para os casos mais complexos. No entanto, têm existido dificuldades de diversa ordem, nomeadamente no recrutamento de profissionais e na abertura de diversas valências que estavam inicialmente previstas.
Acresce ainda que a região de Amadora e Sintra é uma área onde centenas de milhares de utentes não têm acesso a médico de família. As pessoas não conseguem marcar as consultas de que precisam e, por vezes, a ida às urgências é a alternativa… que poderia e deveria ser evitada.
O QUE ME IMPORTA VALORIZAR
A comunicação social destaca invariavelmente os tempos de espera e o desconforto das pessoas nas urgências deste Hospital. O que é mediatizado foca-se de forma repetida e até acrítica apenas no que funciona mal.
Também sou testemunha de atendimentos que me abstenho de qualificar que recentemente me foram dados nesse mesmo serviço de urgências. Mas não valorizo o que me parece ser acessório em relação àquela que é a minha vivência na instituição.

Destaco antes toda uma moldura humana excepcional que se dedica e entrega a prestar cuidados em permanente superação.
E estas pessoas saem dali, de um ambiente de grande pressão e stress, vão para casa, para as suas “vidas”, descansar, tratar dos seus filhos, conviver com as suas mulheres e com os seus maridos, ou companheiras e companheiros… e depois voltam para mergulhar novamente naquele ambiente que é vivido, em cada minuto, sob uma constante tensão e exigência.
E não é por isso que deixam de ter enorme brio e convicção nas tarefas que estão a desempenhar.
LIÇÃO PARA A VIDA
Levei uma lição para toda a vida. Aquilo que vi e vivi, em muitas circunstâncias, me comoveu. E sem dúvida alguma me transformou.
Era isso que eu queria assinalar e deixar aqui registado. Porque estas pessoas têm rosto. Estas pessoas existem.

Dão a cara, o corpo, o melhor de si mesmas. E são tratadas de uma forma, muitas vezes, inqualificável. É por isso importante olhar para elas de forma gratificante e digna, fazendo jus ao tanto que merecem.
E são esses mesmos rostos, todas estas pessoas, as que estão nas fotos e aquelas que, por algum motivo, não estão aqui fotografadas e nomeadas, quem quero enaltecer e expressar o meu profundo reconhecimento e agradecimento:
Ana António, Ana Barata, Ana Fontainhas, António Rangel, Catarina Monteiro, Célia Godinho, Cadi Baio, Elisabete Figueiredo, Filipa Santos, Iraildes Soares, Jaqueline Rodrigues, Jéssica Silva, Klavdiya Kykot, Manuela Silva, Mariia Kostashchuk, Miguel Bravo, Renato Dias, Rita Garcia, Sandra Gomes.