AO LARGO NO ESTREITO DE GIBRALTAR

Farol Cabo Spartel. Marrocos.1999 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Aqui começa, ou termina, a costa ocidental africana. Conforme a perspectiva em que nos colocamos, claro está. Do Farol do Cabo Spartel que está no arco do promontório, vemos a junção do Atlântico ao Mediterrâneo. Finda o Oceano e se diz nascer o Mar, por agora feito Estreito, a nascente, para pouco mais adiante se abrir entre os dois continentes até ao médio oriente.

Tânger. Marrocos.1999 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Tânger. Marrocos.1999 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

A panorâmica do lugar revela um aperto onde África e a Europa quase se tocam com a ponta dos dedos. Como se de um buraco de agulha se tratasse, mas faltasse destreza e pontaria para passar e unir a linha pela ínfima nesga que se vislumbra.

Nesta curta viagem, a largada é do porto de Tânger. A bordo do Ibne Batouta, o princípe dos viajantes, são poucas as milhas que separam o continente africano do europeu ali mesmo em frente. Traço comum do horizonte que se desenha em todo o percurso é a linha de costa do norte de Marrocos e do sul de Espanha. Do outro lado, as portas da Europa abrem-se em Algeciras. É um pulo.

Em viagens bem mais longas que fiz pelo Atlântico, são dias a fio sem vislumbrar a costa, aves, ou vivalma. Não fossem os peixes voadores que se atravessam ou tombam no convés, as conversas com a tripulação, o livro e o bloco de notas e imagino que ao fim de um tempo me sentiria entediado a bordo.

Estreito Gibraltar. 1999 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Estreito Gibraltar. 1999 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Estreito Gibraltar. 1999 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Ao largo, nas viagens longe de terra, durante o dia o horizonte desfaz a linha recta com que nos habituámos a vê-lo, para se moldar num imenso círculo em redor que o radar amplifica, criando a ilusão de nos acharmos no epicentro do imenso oceano. Não é assim no Estreito de Gibraltar.

Apesar de se tratarem de dois continentes que se encostam sem se tocar, parecem desavindos. Mas nem sempre assim foi como sabemos. E talvez por isso, ao longe, tudo parece demasiado próximo; mas também distante quando chegamos ou partimos e olhamos para o outro lado da costa.

Navegar é feito de balanço. É o procurar o chão que foge dos pés e da mente com a ondulação nem sempre certeira, empurrando-nos a perder o olhar entre o vazio e o horizonte. O mar que está por perto, imperturbável, quase sempre deixa focar o rasto que se desvanece após a passagem do casco do navio.

Estreito Gibraltar. 1999 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Estreito Gibraltar. 1999 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Estreito Gibraltar. 1999 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Estreito Gibraltar. 1999 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Longe estão os pensamentos que tentamos ler nas expressões de alguns passageiros. Naquele momento, parecem evadir-se daquele lugar para outros enredos menos contemplativos.

Não são estes os migrantes que ocasionalmente surgem nos rodapés da comunicação social. Na altura em que fiz esta viagem, há duas décadas atrás, não havia ainda a dimensão que hoje conhecemos deste drama, nem a mediatização em torno dos milhares de homens, mulheres e crianças que perdem a vida todos os dias a tentarem chegar à Europa. E não me refiro apenas ao Mediterrâneo.

Estreito Gibraltar. 1999 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Nem são os ferry que naufragam no esquecimento de todos nós. São antes embarcações feitas de ferrugem ou material sintético, quais barcos de papel e de sonhos que acabam invariavelmente em tragédia. Mas longe do Estreito onde facilmente seriam detectados e detidos.

A esperança no sonho europeu é contrariada pelos líderes deste mundo civilizado que pagam aos governos africanos para controlarem os migrantes, sem nome nem rosto, antes de se aventurarem no mar.

Estreito Gibraltar. 1999 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Estreito Gibraltar. 1999 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Estreito Gibraltar. 1999 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Estreito Gibraltar. 1999 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Levam-nos para a fronteira com o país vizinho e consta que os deixam sem água, comida ou sapatos.

A Europa nem quer saber.

– “São rumores”, dizem. A ver se passa.

Sobretudo para que não passem.

Não há mesmo ferryboat que lhes valha.