REBELADOS NO FIM DOS TEMPOS

Filmado na ilha de Santiago, em Cabo Verde, o documentário acompanha o quotidiano e as expectativas de três rebelados que esperam o fim do mundo, anunciado pelos mais velhos para o termo do milénio.

Durante um ciclo agrícola, a câmara percorre o dia a dia de três personagens, um pai e dois filhos, nos trabalhos do campo, no vai-vem aos centros urbanos ou durante as noites de ladainha. Na noite de 31 de Dezembro, reunem-se em oração e baptizam os mais novos antes que chegue o dia do Juízo final.

Nhô Xote e os filhos Domingos e Serafina, partilham a angústia do fim dos tempos anunciado nas Escrituras. Não aceitam o poder do estado ou da igreja. A salvação virá com o regresso de Cristo à Terra para fazer justiça entre os Homens. “A mil chegarás de dois mil não passarás”. O momento está próximo, mas “dia e hora ninguém sabe, nem anjo do Céu”.

NAS TERRAS DE POBREZA

Bimbirim em 1990. Tarrafal. Ilha de Santiago. Cabo Verde. © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

A rodagem do filme foi feita em três localidades de Rebelados: Bimbirim, Saltos de Cima e Calheta de São Miguel. Conheci Bimbirim em 1990, oito anos antes de começar a filmar. Eram então pouco mais de meia dúzia de casas contíguas, de uma mesma família, a poucas centenas de metros do mar.

À primeira vista o que diferenciava aquele espaço eram as casas, construídas com pedra e cobertas com palha. Com excepção de uma única feita em cimento.

Bimbirim. Tarrafal. Ilha de Santiago. Cabo Verde.1990. © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Cozinha comunitária. Bimbirim. Tarrafal. Ilha de Santiago. Cabo Verde.1990. © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Fora então à procura dos Rebelados. Já conhecia jos de Espinho Branco, a uns 20 km a sul. Ali se fazia um ritual todas as semanas, juntando membros do grupo que vinham a pé de outras localidades, empunhando uma bandeira do PAIGC – Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde – a liderar o desfile.

Chegada de um grupo de Rebelados a Espinho Branco com a bandeira do PAIGC. No interior celebra-se uma cerimónia de leitura e de oração que se repetia todos os fins de semana. Ilha de Santiago. Cabo Verde. 1989 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Estes Rebelados consideravam Amílcar Cabral como o messias. Tinha sido enviado por Deus para libertar os cabo verdianos do colonialismo. E, por isso, foram em 1975 até à capital, Cidade da Praia, pedir a bandeira do Partido que passou a ser o seu símbolo de luta e resistência.

Todos os que chegavam se ajoelhavam perante a cruz. Em cima, a foto de Amílcar Cabral e em baixo, de Mascarenhas Monteiro, Presidente da República entre 1991 e 2001. © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Do pouco que se sabia e eu próprio conhecia, percebi em Bimbirim que os Rebelados estavam longe de ser a mesma coisa 15 anos depois do 5 de Julho de 1975 (dia da independência de Cabo Verde).

Aqui não se venerava Cabral, porque “Deus é só Um”, dizia Nhô Xote.

Nhô Xote e Nha Lala. Xote foi deportado para a Boavista por não aceitar a pulverização da sua casa com DDT. Lala atravessou a ilha a pé com a filha de 25 dias para ir ver o companheiro antes de partir. Saltos de Cima. 2001 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Na altura iniciei o meu trabalho de terreno nas chamadas terras de pobreza (porabeza), zonas de sequeiro, situadas nas margens dos chamados morgadios.

Nha Ana e Nhô Pedro, na monda em Ganxemba, Tarrafal. 1990 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Naquilo que era visível, o que então distinguia os Rebelados dos seus vizinhos, eram o acesso ao estado, aos serviços de saúde, educação e, também, à emigração. Isto porque não tinham documentos e, por isso, não tinham existência formal. O que estava então subjacente a tudo isto?

E meia dúzia de anos mais tarde, entendi ser o momento de partilhar todo um novo mundo que se me abrira, dando o salto da imaturidade académica para a imaturidade cinematográfica: e assim realizei o meu primeiro documentário em Cabo Verde. Não para “explicar” o que seriam os Rebelados, mas partir do registo quotidiano de 3 gerações de uma mesma família para melhor entender quem eram estas pessoas e a mudança que então se percebia já estar a acontecer.

Rosa em Bimbirim. Tarrafal. Ilha de Santiago. Cabo Verde. 1990 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Acabei por não fazer a tese que, de acordo com a orientação (!) académica, se deveria focar nos “camponeses” e remetia os rebelados para o último capítulo da dissertação.

Com uma singularidade importante que em nada facilitou a rodagem do documentário: é que então tinham deixado de ser “objecto” de estudo e eram já meus amigos.

Saltos de Cima. Ilha de Santiago. Cabo Verde. 1990. © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

A ESTREIA EM BIMBIRIM

Já depois da rodagem, recordo bem a estreia do documentário em Bimbirim. Como não poderia deixar de ser, foram os primeiros a ver. Foi necessária toda uma logística que hoje seria simples, mas na altura não era. Desde gerador, a projector, som, ecrã. Mas o que mais me preocupava era como o filme seria recebido pelos protagonistas.

Serafina e Mindo. Bimbirim. Tarrafal. Ilha de Santiago. Cabo Verde. 1990 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Enquanto caía a noite e aumentava o meu nervoso miudinho e a expectativa para a sessão, Serafina, uma das protagonistas, veio ter comigo igualmente nervosa. E pediu-me com a sua franqueza habitual:

– “Jorge, afinal não quero aparecer. Podes tirar-me do filme?”

Respondi-lhe que naquele momento não, mas que poderia ficar descansada que se alguma coisa houvesse que não gostasse, iria retirar da versão final.

No final da sessão, tranquilizou-me.

– “Afinal não vai ser preciso. Está tudo bem.”

A VISITA DO MEU PAI EM 1990

Cedo fui sendo confrontado com a proximidade e amizade que fui aprofundando, numa relação que mantenho com algumas destas pessoas até hoje.

Batuque em Bimbirim para receber o meu pai que me veio visitar. 1990 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Batuque em Bimbirim. 1990 © Mário Murteira. Todos os direitos reservados.

Batuque em Bimbirim. 1990 © Mário Murteira. Todos os direitos reservados.

Batuque em Bimbirim. 1990 © Mário Murteira. Todos os direitos reservados.

Relembro quando o meu pai me visitou no Tarrafal enquanto fazia o trabalho de campo em 1990. Foi enorme a expectativa que se criou que foi aumentando à medida que se aproximava a data da sua vinda. Durante um desses dias, um amigo perguntou-me se o meu pai era mais branco ou mais preto que o pai dele e eu fiquei sem saber o que responder.

Quando ele apareceu em Bimbirim, não o deixaram partir sem lhe fazer um batuque. Ficou o registo que aqui partilho dessa noite memorável para todos nós.

Batuque em Bimbirim por ocasião da visita do meu pai em 1990 © Mário Murteira. Todos os direitos reservados.

NUNCA É TARDE

Domingos. Monte da Caparica. Lisboa 2022 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

O quanto este filme mudou a minha vida e a de muitos dos que nele participaram seria provavelmente merecedor de um outro documentário.

Até porque nunca é tarde.

Talvez um dia, quem sabe?