LARANJA NO IRÃO

Teerão está rodeado de uma cordilheira de montanhas. A zona mais baixa é densamente povoada, mais parecendo o fundo de um imenso caldeirão onde se agita uma animação e fervor que são habituais nas grandes cidades capitais.

Teerão. Irão. 2001 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Teerão. Irão. 2001 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Teerão. Irão. 2001 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Naquele outono a neve ía-se acumulando no betão e no alcatrão; praças, ruas, avenidas e jardins perdem o verde rasteiro da vegetação. É fora do perímetro urbano que se avista claramente o branco maciço que tudo cobre em redor. De quando em vez, volta a cair em farelos. Nem assim arrefece o bulício do trânsito e a animação dos transeuntes.

E se o branco é o tom da paz, aquela que se vive por estas paragens parece continuar a ser muito débil e precária.

AS MEMÓRIAS ÁRABO ISLÂMICAS EM PORTUGAL NO IRÃO

Conheci o país em 2001. Acompanhei então uma exposição itinerante da Comissão Nacional dos Descobrimentos que por ali ficou algum tempo: as “Memórias Árabo-Islâmicas em Portugal”. A exposição foi bem acolhida, tendo sido também aqui um importante elo de ligação cultural.

Relembro o interesse e empenho da nossa Embaixada e, em particular, do Embaixador, para que tudo pudesse correr da melhor forma. No apoio permanente e de proximidade que foi concedido, desde da chegada ao aeroporto até à partida.

Teerão. Irão. 2001 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

As pausas durante a montagem, permitiram ter algum – pouco – tempo para circular e aproveitar para conhecer a cidade “de raspão”. Na zona central, jovens estudantes passavam e conversavam animados. Apetecia “meter conversa” mas não era fácil fazê-lo naquelas circunstâncias.

A saída para o almoço num simpático restaurante, foi pretexto para contactar com um empregado durante alguns dias e com ele ter alguma relação nas circunstâncias possíveis. Pouco falava mas percebia bem o inglês, enquanto eu nada entendia do farsi. Mas com ele aprendi algo que jamais esquecerei, como voltarei a referir adiante.

ISFAHAN – A METADE DO MUNDO

Praça Naqsh-e Jahan (Imam Square). Isfahan. Irão. 2001 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Concluída a montagem e antes de voltar a Lisboa, fui a Ishfahan e, no mesmo dia, regressei a Teerão.

As poucas horas que por ali passei foram manifestamente insuficientes para poder conhecer esta cidade que se tornou um importante centro cosmopolita na Rota da Seda. Comerciantes vindos de várias partes do mundo, desde arménios, judeus, indianos, chineses e europeus que por ali passaram ou se estabeleceram.

Isfahan. Irão. 2001 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Ponte Khaju. Isfahan. Irão. 2001 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Entre os finais do século XVI e parte da primeira metade do século XVII, foi não apenas a capital política, económica e religiosa do Império Safávida, com também um centro de ciência, filosofia, teologia e literatura Persa.

De Isfahan se dizia nesse período de apogeu ser “metade do mundo”.

Hoje é conhecida por ser um “verdadeiro museu a céu aberto da arquitectura safávida”. E assim é desde a praça central – Naqesh e Jahan (Imam Square) – património da UNESCO, que se diz ser uma das maiores praças do mundo, passando pela Mesquita do Imã (Shah Mosque), o Palácio Chehel-Sotun, um dos jardins iranianos também classificados pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade, a ponte Khaju, considerada como um dos monumentos de excelência da arquitectura persa, entre muitos outros sitios da cidade.

Palácio Ali Qapu. Praça Naqsh-e Jahan (Imam Square). Isfahan. Irão. 2001 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Praça Naqsh-e Jahan (Imam Square). Isfahan. Irão. 2001 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Mesquita do Imã (Shah Mosque). Isfahan. Irão. 2001 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Palácio Chehel Sotun. Isfahan. Irão. 2001 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Palácio Chehel Sotun. Isfahan. Irão. 2001 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Chehel Sotoun. Isfahan. Irão. 2001 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

São estas verdadeiras viagens no espaço e nos tempos. Confontou-me com a história destes lugares e civilizações, das quais pouco ou nada sabia e de que, reconheço, contínuo sem saber. Mas também com o passado mais recente, como aquele que marcou o Irão na segunda metade do século passado e ainda vai condicionando no presente.

NÃO APRENDER COM A HISTÓRIA

Teerão. Irão. 2001 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

A viagem para Isfahan e o regresso foram feitas a bordo de um velho Boeing 727 da linhas aéreas nacionais. A saída estava indicada para o ponto de uma saída de emergência, na traseira, a partir de uma porta situada no extremo oposto do cockpit. Ao fundo do corredor, por debaixo da cauda, desci as escadas perto dos três reactores que faziam um ruído ensurdecedor. Naquela altura, este era mesmo considerado como um dos aviões mais ruidosos da aviação comercial.

Tão barulhenta como resistente, a aeronave americana foi para mim, naquele momento, um símbolo anacrónico que me fez reflectir sobre as tensões e conflitos que continuam a abalar o país. Remonta o obsoleto Boeing 727 aos tempos do Mohammad Reza Pahlavi que foi Xá do Irão e reinou, com mão de ferro, durante quase quatro décadas.

Teerão. Irão. 2001 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Sabe-se hoje que foi mantido e reforçado o seu poder por meio da intervenção de duas das maiores potências ocidentais: os ingleses e os americanos. Os primeiros, através dos serviços secretos do MI6 e os segundos, por acção directa da CIA, conforme confirma um relatório da própria agência concluído em 1998, mas o qual só teve autorização para ser divulgado em 2017. Ambos patrocinaram em 1953 um golpe que afastou o primeiro-ministro de um governo secular que tinha sido democraticamente eleito há apenas dois anos.

No início da década de cinquenta, pouco depois de assumir o cargo, Mossaddegh promoveu a nacionalização da BP – British Petroleum. Contou desde logo com a oposição dos britânicos que tentaram mobilizar a europa para, a todo o custo, os ajudar a impedir o Irão de concretizar as suas intenções. No velho continente estavam ocupados e preocupados com as tensões que eclodiam com o fim do Império Colonial. A descolonização varria então os continentes africano e asiático, não lhes interessando acrescentar mais uma frente de conflito aquelas com que então se confrontavam.

Teerão. Irão. 2001 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Mossaddegh acabou por pagar caro a ousadia de enfrentar os interesses britânicos e americanos tendo sido deposto. Para além do embargo decretado ao petróleo iraniano, investiram com sucesso na desestabilização do país, instigando divergências internas que condicionaram e alteraram os frágeis equilíbrios de poder existentes. Pouco tempo depois de um primeiro golpe fracassado, o então Primeiro-ministro foi destituído num segundo golpe de estado, sendo substituído por Fazlollah Zahedi, um leal seguidor do conveniente “amigo americano”: o Xá.

Mais de duas décadas depois, com a Revolução Islãmica em 1979, a deposição do Xá Reza Pahlavi e a chegada de Khomeini ao poder, foram uma dura derrota e humilhação para os interesses americanos na região.

Teerão. Irão. 2001 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

O tempo não diluiu os ressentimentos e as contas ainda parecem estar por saldar. 72 anos passados, a ameaça americana volta a subir de tom. Num futuro próximo, no caso de se consumar uma eventual intervenção militar promovida pela nova administração americana, parece adivinhar-se mais uma tragédia no país e na região.

No Irão, como no mundo, não parece haver capacidade ou interesse em se aprender com a história.

UM REGRESSO DOCE A TEERÃO

Teerão. Irão. 2001 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

No último dia que restava em Teerão, na despedida do restaurante onde ía habitualmente durante a montagem da exposição, o empregado que já conhecia quis saber qual era o meu país. Quando lhe respondi que era português, fez um imenso sorriso e exclamou, repetindo várias vezes, porteghâl ! porteghâl ! porteghâl ! Foi de imediato buscar algumas laranjas que estavam por perto, colocando-as sobre a mesa e insistiu:

Porteghâl ! porteghâl ! porteghâl !

De início não entendi o alcance do que fazia e dizia com tão boa disposição. Percebi depois que, em farsi, a palavra “laranja” se diz porteghâl e refere-se aos naturais de Portugal. Por sua vez, portughāli aplica-se ao português enquanto língua ou nacionalidade.

Fiquei assim a saber que as laranjas no Irão tinham, tal como eu, vindo de Portugal.

Provavelmente pela sua doçura, as primeiras ficaram para durar, enquanto eu tinha bilhete de volta para o dia seguinte.