A CHARRUA DE JOSÉ MARIA GUIOMAR

Castro da Cola. 1998 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Castro da Cola. 1998 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

José Maria Guiomar vivia perto de Castro Cola, em Ourique, numa pequena casa à beira do rio Mira que desemboca, a poucas centenas de metros, na barragem de Santa Clara.

Nas cheias de Novembro de 1997, o pequeno cabeço onde morava não tinha altura suficiente para o proteger do dilúvio. A barragem transbordou como não havia memória. Foi por pouco. Salvou-se, mas as águas levaram-lhe tudo o que tinha.

Há que continuar as lides e olhar em frente. E assim foi no ano seguinte; primeiro com a reconstrução da casa e depois, na primavera, com os trabalhos no campo.

Castro da Cola. 1998 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Castro da Cola. 1998 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

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Castro da Cola. 1998 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

Castro da Cola. 1998 © Jorge Murteira. Todos os direitos reservados.

1 de Maio é dia de festa em Castro da Cola. É por esta altura que prepara o chão onde semeia. A mula arrasta a charrua com um ímpeto que ele mal consegue controlar. O animal é novo e a força já lhe vai faltando que a idade não perdoa.

Enquanto avança, aos safanões, repete em cada investida os mesmos gestos, primeiro bruscos, depois mais suaves, acompanhados por gritos prolongados, como quem desespera por não conseguir controlar a marcha. A aflição de, por momentos, se sentir incapaz de domesticar a teimosia da besta e atinar com o rumo da semeadura.

Incansável, insiste e persiste em teimar que os sulcos trilhados pela charrua sejam certos e terminem onde é suposto, sem que o animal desenfreado arrepie caminho pelo campo fora.

Quando por ali passo, já não encontro José Maria Guiomar. Era um lutador. Daqueles que lutam a vida inteira. Sabia como ninguém que os homens não se medem aos palmos.